segunda-feira, 8 de maio de 2017

ACOWAR



2 anos antes da Muralha - Rhysand

  Havia muito que o barulho das moscas e os gritos dos sobreviventes suplantara os barulhos dos tambores de guerra.

  O campo de matança era agora um emaranhado de cadáveres, tanto humanos quanto feéricos, interrompidas apenas pelo barulho de asas em direção ao céu cinza ou o bufar ocasional de um cavalo caído. Com o calor, apesar da densa nuvem que se avizinhava, o cheiro seria, em breve, insuportável. As moscas já se arrastavam sobre olhos que miravam fixos o céu. Elas não diferenciavam carne mortal da imortal.

  Fiz meu caminho pelo que havia sido antes uma planície repleta de grama, marcando as bandeiras meio afundadas entre a carnificina e a lama. Levara boa parte das forças que me restavam não arrastar minhas asas por cima de corpos e armaduras. Meu próprio poder havia sido depredado antes que a carnificina tivesse acabado.

  Havia passado as últimas horas lutando como os mortais ao meu lado: com a espada, com os punhos e foco e brutalidade incansáveis. Havíamos segurado as legiões de Ravennia – hora após hora havíamos mantido a linha, como eu havia sido ordenado por meu pai, como eu sabia que deveria fazer. Falhar aqui teria sido o golpe de misericórdia na nossa parca resistência. 

  Eu arrodeei um cavalo marrom-dourado. Os olhos do bonito animal ainda estavam arregalados de horror, as moscas formando uma crosta no seu flanco. O cavaleiro estava torcido por baixo dele, com a cabeça parcialmente cortada. Não por um golpe de espada. Não, aquelas marcas brutais eram de garras. A fortaleza iminentemente às minhas costas era muito valiosa para ser cedida aos Leais. Não só pela sua localização no coração do continente, mas também pelos suprimentos que guardava. Pelas forjas que trabalhavam dia e noite, labutando para suprir nossas forças.

  A fumaça das forjas já se misturava às das piras que eram acesas atrás de mim enquanto caminhava, procurando nos rostos dos mortos. Dei ordem para que os soldados que tivessem estômago tomassem quaisquer armas encontradas em ambos exércitos. Precisávamos delas desesperadamente para nos importamos com coisas como honra. Especialmente quando o outro lado não se importava em nada.

  Tão quieto – o campo de batalha estava tão quieto, comparado com o caos e matança que finalmente haviam sido interrompidos horas atrás.  O Exército dos Leais havia escolhido bater em retirada ao invés de render-se, deixando seus mortos para os corvos. 

  Eles não cederiam facilmente. Os reinos e territórios que queriam seus escravos humanos não perderiam essa guerra a menos que não tivessem outra escolha. E mesmo assim... Aprendemos do jeito mais difícil, e muito rápido, que eles não tinham nenhum apreço pelos ritos ou regras de batalha. E para os territórios Feéricos que lutassem ao lado das forças mortais... Erámos para ser esmagados como vermes. 

  Espantei para longe uma mosca que zunia em meu ouvido. Minha mão ensopada com meu sangue e sangue estranho.

  Sempre achei que a morte seria uma espécie de boas vindas dócil – uma espécie de canção de ninar doce e triste que me guiaria para o que quer que houvesse do outro lado.

  Me esbarrei com uma bota de um porta-estandarte Leal, espalhando lama vermelha sobre o bordado de presa de javali na sua bandeira verde-esmeralda.

  Eu agora me perguntava se a canção de ninar da morte não era uma canção amável, mas sim o zunir das moscas. Se as moscas e vermes não seriam as damas de companhia da morte. 

  O campo de batalha se estendia para o horizonte em todas as direções, menos às minhas costas, onde ficava a fortaleza. 

  Por três dias nós os seguramos; três dias tínhamos lutado e morrido ali.

  Mas seguraríamos a linha. De novo e de novo. Eu liderei Humanos e Feéricos, me recusei a deixar que os exércitos dos Leais quebrassem nossa linha, mesmo quando eles martelaram nosso flanco direito vulnerável com tropas recém chegadas no segundo dia. 

  Usei meu poder até que ele fosse nada além de fumaça em minhas veias, e então eu usei todo meu treinamento Illyriano, até que eu não soubesse nada além de girar meu escudo e espada e que fosse tudo o que tivesse contra as hordas.

  Uma asa illyriano semi retalhada surgiu sobre uma camada de corpos de Grão-Feéricos, como se tivesse sido necessário seis deles para derrubar o guerreiro. Como se ele tivesse levado todos os seis com ele. 

  Meu coração irrompeu contra meu corpo enquanto eu movia os corpos pra longe.

  Reforços haviam chegado no alvorecer do terceiro e final dia, mandados por meu pai depois de ter implorado por ajuda. Estava muito perdido na fúria da batalha para notar quem eles eram além de uma unidade Illyriana, especialmente quando tantos deles usavam Sifões.

  Mas nas horas desde que eles tinham salvado nossos traseiros e virado a maré da batalha não avistara nenhum dos meus irmãos entre os vivos. Não sabia nem se Cassian ou Azriel haviam lutado nessa planície. 

  O último era improvável, pois o meu pai o mantinha perto como seu espião. Já Cassian... Cassian poderia ter sido redesignado. Eu não duvidaria se meu pai o designasse para uma legião que estava para ser massacrada como essa estava provavelmente para ser, com quase metade dela pulando fora do campo de batalha mais cedo. 

  Meus dolorosos e sangrentos dedos cavavam entre as armaduras dentadas e carne dura e pegajosa enquanto eu empurrava para longe o corpo do último Grão-Feérico empilhado sob o corpo do illyriano.

  O cabelo negro, a pele dourada... Igual aos de Cassian.

Mas não era de Cassian o rosto cinzento mortal que olhava fixo para o céu.

  Um suspiro escapou de mim, meus pulmões ainda duros de gritar, meus lábios secos e rachados. Precisava de água – urgentemente. Mas logo ao lado outro par de asas illyrianas surgiu da pilha de corpos. 

  Tropecei e me arrastei em sua direção, deixando que minha mente flutuasse para algum lugar escuro e quieto, enquanto eu consertava o pescoço no ângulo errado para olhar o rosto sob o capacete.

  Não era ele.

  Fiz meu caminho pelos cadáveres até outro corpo illyriano.

  E outro. E mais outro.

  Alguns eu conhecera. Alguns não. E mesmo assim o campo de mortes se estendia adiante, sob o céu. Milha após milha. Um reino de corpos podres. 
E ainda assim eu procurei.

6 comentários:

  1. Cara, muito obrigada por estar traduzindo o livro, de coração <3

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  2. mds muito mais muitooooo obrigado por estar traduzindo
    AMOOO você desde já <3 <3 <3

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  3. Obrigada do fundo do coração por estar traduzindo <3

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  4. Mana muito obrigada por essa tradução, você salvou vidas hahaah! Já te amo, viu? hahaha Vou começar a ler imediatamente!

    Eduarda
    Universo Paralelo | Instagram @blogumup

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