segunda-feira, 8 de maio de 2017

CHAPTER 09

Ianthe não havia acabado.
Eu sabia – eu tinha me preparado para isso. Ela não se foi na direção do seu templo, só a algumas milhas de distância.
Ao contrário, ela permaneceu na casa, buscando a chance de rastejar para perto de Tamlin. Ela acreditara que ganhara terreno, que sua declaração de justiça servida na ponta final sangrenta do chicote não tinha sido nada além de um tapa final no rosto dos guardas que assistiram.
E quando aquela sentinela ficou arqueada sob suas amarras, quando os outros vieram gentilmente desamarrá-lo, Ianthe apenas incitou o grupo de Hybern para dentro da mansão para o almoço. Mas eu havia ficado no quartel, cuidando da sentinela que gemia, levando para longe as tigelas de água ensanguentadas enquanto o curador, pacientemente, costurava-o.
Bron e Hart pessoalmente me escoltaram para os terrenos da mansão horas depois. Eu agradeci a cada um deles pelo nome. Então pedi desculpas por não ter sido capaz de impedir aquilo – os esquemas de Ianthe ou a punição injusta de seu amigo. Eu realmente quis dizer cada palavra, o soar do chicote ainda ecoando em meus ouvidos.
Então eles falaram as palavras que eu estava esperando. Eles se sentiam arrependidos que não tinham conseguido impedir nada daquilo também.
Não só hoje. Mas os machucados que agora estavam sumindo – finalmente. E sobre outros incidentes. Se eu tivesse pedido, eles teriam me dado suas adagas para que eu cortasse suas gargantas.
Na noite seguinte eu estava correndo de volta para meu quarto, para me trocar para o jantar, quando Ianthe fez seu próximo movimento. Ela viria conosco para a muralha no dia seguinte.
Ela e Tamlin também.
Se era para sermos um front unido, ela declarara no jantar, então ela desejava ver a Muralha por ela mesma. 
Os príncipes de Hybern não ligaram. Mas Jurian piscou para mim, como se ele também visse o jogo dela em movimento.
Eu fiz minha própria bagagem naquela noite.
Alis entrou logo antes de deitar, com uma terceira sacola em suas mãos. “Já que é uma longa viagem, eu te trouxe uns suprimentos.”
Mesmo com Tamlin se juntando a nós, era muita gente para que Atravessássemos diretamente. Então iríamos como havíamos feito antes, por partes. Umas poucas milhas de cada vez.
Alis colocou a mochila que ela preparara ao lado da minha. Pegou a escova de cabelo sobre a penteadeira e sinalizou para que eu sentasse no banco acolchoado diante dela. Eu obedeci. Por alguns minutos ela penteou meu cabelo em silêncio. E então, ela disse.
- Quando você for embora amanhã, eu também irei. - Levantei meus olhos para os dela no espelho.
- Meus sobrinhos já se arrumaram, os pôneis estão preparados para nos levar de volta ao território da Corte Estival finalmente. Já faz muito tempo que vi minha casa. - Disse ela, apesar do brilho em seus olhos.
- Eu sei como é. - Foi tudo o que disse.
- Desejo-lhe tudo de bom, senhorita. - Alis disse, abaixando a escova de cabelo e começando a trançar meu cabelo nas costas. “Pelo resto dos seus dias, não importa o quão longo eles sejam, desejo tudo de bom.”
Deixei que ela terminasse a trança, então girei no banco para pegar os dedos finos dela entre os meus. “Nunca diga a Tarquinn que me conhece”, suas sobrancelhas subiram.
- Há um Ruby de sangue com meu nome dele. - Eu esclareci.
Mesmo sua pele cor de casca de árvore pareceu esmaecer. Ela compreendeu perfeitamente bem: Eu era uma inimiga caçada pela Corte Estival. Só minha morte seria aceita como pagamento pelos meus crimes. 
Alis apertou minha mão. “Rubis de sangue ou não, você sempre terá uma amiga na Corte Estival”.
Minha garganta falhou. “E você sempre terá uma na minha.” Eu prometi a ela. 
Ela sabia de que corte eu falava. E não demonstrou medo.

***
As sentinelas nem sequer olharam para Tamlin e falaram com ele somente o estritamente necessário. Bron e Hart e outros três se juntariam a nós. Eles haviam me visto buscando notícias de seu amigo antes do amanhecer – uma cortesia que eu sabia que ninguém mais havia feito.
Atravessar parece como vagar na lama. De fato, meus poderes se transformaram mais num fardo do que em ajuda. Eu tinha uma dor de cabeça pulsante pela hora do almoço e passara a última parte da jornada tonta e desorientada enquanto nós atravessávamos e atravessávamos.
Chegamos e acampamos praticamente em silêncio. Quieta e de maneira tímida, eu pedi para dividir uma tenda com Ianthe ao invés de Tamlin, demonstrando estar ávida para consertar o talho que aquelas chicotadas tinham feito entre nós. Mas eu fiz mais do que poupar Lucien das atenções dela, colocara Tamlin na linha. 
O jantar foi feito e comido. Os sacos de dormir colocados para fora e Tamlin ordenou Bron e Hart que ficassem no primeiro turno.
Deitar do lado de Ianthe sem cortar sua garganta era um exercício de paciência e controle.
Mas sempre que eu sentia a faca debaixo do travesseiro, ela parecia sussurrar o nome dela, então me lembrava do nome dos meus amigos. Da família que estava viva – se curando no Norte.
Eu repeti seus nomes em silêncio, de novo e de novo na escuridão. Rhysand. Mor. Cassian. Amren. Azriel. Elain. Nestha.
Pensei em como eu os tinha visto pela última vez, tão machucados e sangrando. Pensei nos gritos de Cassian enquanto suas asas eram retalhadas; da ameaça de Azriel enquanto o rei avançava para Mor. Nestha, lutando a cada passo à frente contra o Caldeirão.
Meu objetivo era maior que minha vingança. Meu propósito maior do que meu ganho pessoal.
A aurora irrompeu e eu me vi com a palma da mão enrolada na guarda de minha adaga. Eu a desembainhei quando me sentei, olhando para baixo, para a sacerdotisa que dormia. A macia coluna de seu pescoço parecia brilhar no sol matinal que vazava por entre os tecidos da tenda.
Pesei a faca em minha mão.
Não sei se havia nascido com a capacidade de perdoar. Não para os terrores infligidos naqueles que eu amava. Por mim, eu não me importava – não muito. Mas havia algum pilar de aço fundamental em mim que não se dobrava ou quebrava. Que não conseguia suportar a ideia de deixar que essas pessoas saíssem ilesas pelo que elas fizeram.
Os olhos de Ianthe se abriram, o verde-azulado límpido como sua tiara descartada. Eles foram direto para a faca em minha mão, então para meu rosto.
- Não se pode ser cuidadosa demais quando se divide o acampamento com inimigos. - Eu disse.
Eu podia jurar que algo como medo brilhou nos olhos dela. “Hybern não é nosso inimigo”, ela disse com pouco fôlego. Pela sua palidez quando eu saí da tenda, eu soube que meu sorriso de resposta tinha feito seu trabalho.

***
Lucien e Tamlin mostraram aos gêmeos onde ficavam os talhos na Muralha. Assim como haviam feito com as duas primeiras, eles passaram a maior parte do tempo analisando-a, buscando nos arredores. Me mantive por perto dessa vez, observando-os, minha presença agora nada menos do que um relativo e inofensivo incômodo. Brincávamos com nossos joguinhos de poder, ficara estabelecido que eu podia morder quando quisesse, mas estávamos nos tolerando uns aos outros.
- Aqui. - Brannagh murmurou para Dagdan, apontando o queixo para a divisória invisível. As únicas marcas eram as árvores diferentes: no nosso lado eram brilhantes, de um verde fresco primaveril. No outro lado eram escuras, largas e se curvavam levemente com o calor – a temperatura do verão.
- A primeira era melhor. - Dagdan contou.
Eu sentei sobre um pequeno tronco, descascando uma maçã com uma faca pareada.
- Próxima da costa oeste também. - Ele adicionou à sua gêmea.
- Essa é mais perto do continente – do estreito.
Eu cortei fundo na carne da maçã, cavando um pedaço grande de sua carne branca.
- Sim, mas teríamos mais acesso aos suprimentos do Grão-Senhor.
O dito Grão-Senhor havia saído com Jurian, havia ido caçar por mais comida além dos sanduíches que havíamos empacotado. Ianthe havia ido para uma fonte próxima para rezar e eu não tinha ideia nenhuma de onde Lucien ou as sentinelas estavam.
Bom. Mais fácil pra mim enquanto eu empurrava um pedaço da maçã para minha boca e dizia. “Eu diria para ficarem com essa”
Eles se viraram para mim, Brannagh me olhando com desprezo e as sobrancelhas de Dagdan altas. “O que você sabe sobre qualquer coisa disso?” - Brannagh demandou.
Eu dei de ombros, cortando um outro pedaço de maçã.
- Vocês dois falam mais alto do que imaginam.
Eles trocaram olhares acusatórios entre si. Orgulhosos, arrogantes, cruéis. Estava já há quinze dias aturando suas posturas. “A menos que vocês queiram arriscar dar tempo a outras Cortes para se reunirem e interceptarem vocês antes que possam cruzar o estreito, eu escolheria essa.” 
Brannagh revirou os olhos.
Eu prossegui, divagando e entediada. “Mas o que eu sei? Vocês ficaram encolhidos naquela ilhota de vocês por quinhentos anos. Claramente vocês sabem mais sobre Prythian e como movimentar exércitos aqui do que eu.”
Brannagh chiou.
- Isso não se trata de exércitos, então vou confiar que você manterá sua boca fechada até que tenhamos uso para você.
Eu funguei. “Você quer dizer que toda essa maluquice não tem sido sobre achar um lugar para passar pela Muralha, usar o Caldeirão e também transportar a massa dos seus exércitos para cá?”
Ela riu, balançando a cortina negra de seu cabelo sobre seu ombro, “O Caldeirão não é para transportar exércitos brutos. Ele é para remodelar mundos. É para trazer abaixo essa odiosa Muralha e reclamemos o que nós fomos.”
Eu somente cruzei minhas pernas. “Achei que com um exército de dez mil vocês não precisariam de objetos mágicos para fazer seu trabalho sujo.”
- Nosso exército é dez vezes isso, garota. - Brannagh zombou. “E o dobro desse número se contar com nossos aliados em Vallahan, Montesere e Rask”.
Duzentos mil. Que a Mãe nos salve.
- Vocês certamente estiveram ocupados nesses últimos anos. - Eu os analisei, totalmente perplexos. “Por que não atacar quando Amarantha tinha o controle da ilha?”
- O rei ainda não tinha achado o Caldeirão, apesar de todos os anos buscando. Serviu ao seu propósito deixar que ela fizesse esse experimento, em como quebrar essas pessoas. E serviu como uma boa motivação para nossos aliados no continente se juntarem à nós. Sabendo eles o que os esperaria.
Terminei minha maçã e cuspi seu centro nas florestas. Eles observaram-no voar como dois cachorros acompanhando um faisão.
- Então, todos vão convergir para cá? Supostamente eu tenho de bancar a anfitriã para tantos soldados?
- Nossa própria força cuidará de Prythian antes de se unir às outras unidades. Nossos comandantes estão se preparando enquanto conversamos.
- Vocês devem achar que podem mesmo perder se estão se importando em usar o Caldeirão para ajuda-los a ganhar.
- O Caldeirão é vitória. Vai limpar esse mundo todo de novo.
Ergui minhas sobrancelhas num irreverente cinismo.
- E vocês precisam desse exato lugar para liberá-lo?
- Esse exato lugar. - Dagdan disse, com uma mão no cabo da espada. “Existe porque uma pessoa ou objeto de grande poder passou por ele. O Caldeirão estudará o trabalho feito – e amplificará até que a Muralha colapse inteiramente. Será um processo cuidadoso e complexo e um que, eu duvido, uma mente mortal pode alcançar.”
- Provavelmente. Embora essa mente mortal conseguiu resolver a charada de Amarantha – e destruí-la.
Brannagh meramente se virou de costas para a Muralha.
- Você acha que Hybern deixou-a viver por tanto tempo nessas terras pelo quê? Melhor ter alguém para fazer seu trabalho sujo.

***

Eu tinha o que eu precisava.
Tamlin e Jurian ainda estavam fora, caçando. Os príncipes estavam preocupados, e eu tinha mandando as sentinelas buscarem-me mais água, afirmando que meus machucados ainda doíam e eu queria fazer um cataplasma para eles.
Eles pareciam, definitivamente, irritados com aquilo. Não comigo – mas com quem havia me dado aqueles machucados. Quem havia escolhido Ianthe ao invés deles – e Hybern sobre sua honra e povo. 
Eu trouxera três mochilas, mas eu só precisaria de uma. Aquela que eu tinha cuidadosamente rearrumado com os suprimentos de Alis, agora enfiados entre tudo que antecipei que precisaria para me livrar deles e ir embora. Aquela que trouxera comigo em cada uma das viagens à Muralha, só para caso de precisar. E agora...
Eu tinha números. Eu tinha um propósito, eu tinha localizações específicas e nomes de territórios estrangeiros. Mas mais do que isso, eu tinha um povo que perdera a fé em sua GrãSacerdotisa. Eu tinha sentinelas que estavam começando a se rebelar contra seu Grão-Senhor. E como resultado dessas coisas, eu tinha os príncipes reais de Hybern em dúvida sobre a força dos seus aliados aqui. Eu tinha preparado essa corte para cair. Não por forças externas – mas por suas guerras internas.
E eu tinha que sair limpa disso antes que tudo acontecesse. Antes que a próxima fração do meu plano caísse no seu lugar. Aquele grupo retornaria sem mim. E para manter a ilusão de força, Tamlin e Ianthe seriam forçados a mentir – para onde eu teria ido.

E talvez um dia ou dois depois disso, uma dessas sentinelas revelaria as novidades, uma armadilha cuidadosa que eu tinha enrolado em sua cabeça, como um dos meus laços.
Eu fugira pela minha vida – depois de quase ter sido morta pelo príncipe e princesa de Hybern. Eu plantara imagens em sua mente do meu corpo brutalizado, as marcas consistentes do que Dagdan e Brannagh já haviam revelado ser o seu estilo. Ele as descreveria em detalhes – descreveria como ele me ajudou a fugir antes que fosse tarde demais. Como eu fugi pela minha vida, quando Tamlin e Ianthe se recusaram a interferir, a arriscar a aliança deles com Hybern.
E, quando a sentinela revelasse a verdade, não mais capaz de suportar aquilo tudo quando ele via o quão piedoso era meu destino confinado nas mãos de Tamlin e Ianthe, da mesma forma que Tamlin se bandeara para o lado de Ianthe no dia em que ele flagelara aquela sentinela...
Quando ele descrevesse o que Hybern tinha feito a mim, à Quebradora de Maldições, sua nova apontada Abençoada pelo Caldeirão, antes que eu fugisse pela minha vida...
Não haveria mais aliança. Pois não haveria nenhuma sentinela ou habitante dessa corte que ficaria do lado de Tamlin ou Ianthe depois disso. Depois de mim.
Eu me escondi em minha tenda para pegar minha mochila, meus passos leves e rápidos. Ouvindo, quase nem respirando, eu escaneei o acampamento e o bosque.
Mais uns segundos extras e eu tomara o boldrié de facas de Tamlin que ele havia deixado em sua tenda. Eles atrapalhariam quando usasse arco e flecha, ele me explicara essa manhã.
Seu peso era considerável, eu notei enquanto amarrava eles ao meu peito. Facas de luta Illyrianas.
Casa. Eu estava indo para casa.
Não me importei em olhar para trás, para o acampamento, enquanto eu escorregava para o lado norte da linha de árvores. Se eu atravessasse sem parar entre espaços, eu estaria no pé das colinas em uma hora – e teria desaparecido por uma das cavernas não muito longe depois disso.
Eu fiz cerca de noventa e um metros dentro da cobertura das árvores antes que estacasse.
Eu ouvi Lucien primeiro
- Se afaste.
Uma risada feminina e baixa.
Tudo em mim parou e ficou gelado àquele som. Já tinha ouvido antes – nas memorias de Rhysand.
Continue indo. Eles estavam distraídos, por mais horrível que fosse.
Continue, continue, continue.
- Achei que você me procuraria depois do Rito. - Ianthe ronronou. Eles não podiam estar a mais de nove metros dentro das árvores. Longe o bastante para não ouvir minha presença, se eu fosse quieta o bastante.
- Eu fui obrigado a fazer o Rito. - Lucien cuspiu. “Aquela noite não foi produto de desejo, acredite em mim.”
- Nos divertimos, você e eu.
- Sou um Macho com uma Parceira agora.
Cada segundo a mais era o sino da minha morte soando. Eu antecipara tudo à queda; há muito já tinha parado de sentir culpa ou dúvida sobre meus planos. Não com Alis agora a salvo.
E ainda- ainda-
- Você não age assim com a Feyre. - Uma ameaça envolvida em seda.
- Você está enganada.
- Estou? - Galhos e folhas foram amassados, como se ela estivesse circundando-o, “Você põe suas mãos sobre ela inteira.”
Eu tinha feito meu trabalho tão bem, provocado tanto ciúme nela com cada minuto e desculpa que eu achava para que Lucien me tocasse em sua presença, na presença de Tamlin.
- Não me toque. Ele rosnou.
E então eu estava me mexendo.
Mascarei o som de minhas pegadas, silenciosa como uma pantera enquanto eu andava para chegar àquela pequena clareira onde eles estavam.
Onde Lucien estava, de costas para uma árvore – com algemas de uma pedra azul ao redor de seus pulsos.
Já havia visto aquilo antes. Em Rhys, para imobilizar seu poder. Pedra escavada das terras apodrecidas de Hybern, capazes de anular mágica. E nesse caso... Segurando Lucien contra aquela árvore, enquanto Ianthe analisava-o como uma cobra ante sua próxima refeição.
Ela deslizou uma mão nos amplos painéis de seu peito, de sua barriga.
E os olhos de Lucien foram para mim enquanto eu pisava entre as árvores, medo e humilhação enrubescendo sua pele dourada.
- Basta. - Eu disse.
Ianthe virou sua cabeça para mim. Seu sorriso era inocente, afetado. Mas eu a vi notar a mochila, o boldrié de Tamlin. Larguei ambos.
- Estávamos no meio de um joguinho. Não estávamos, Lucien?
Ele não respondeu.
E a visão daquelas algemas nele, da forma que ela o havia prendido na armadilha, a visão da mão dela ainda na barriga dele-
- Voltaremos para o acampamento assim que terminarmos. - Ela disse, se virando para ele de novo. Sua mão escorregou para mais baixo, não para seu próprio prazer, mas para simplesmente jogar na minha cara que ela pode-

Eu ataquei.
Não com minhas facas ou magia, mas com minha mente.
Eu rasguei o escudo que tinha mantido ao seu redor para evitar o controle dos gêmeos e me atirei contra sua consciência.
Uma máscara sobre um rosto decadente. Assim que era como estar dentro daquela linda cabeça e achar coisas odiosas dentro. Uma trilha de machos que ela tinha usado seu poder ou não para força-los para ir para cama, convencida do seu direito sobre eles. Eu empurrei de novo sobre o puxão daquelas memórias, me controlando. “Tire suas mãos dele.”
Ela tirou.
- Tire as algemas dele.
A pele de Lucien não tinha cor enquanto Ianthe me obedecia, seu rosto quase vago, flexível. As algemas de pedra azul caíram no chão musgoso.
A camisa de Lucien estava torta, o botão de cima de sua calça aberto.
O rugido que encheu minha mente era tão alto que eu mal podia me ouvir enquanto eu dizia. “Pegue aquela pedra.”

Lucien continuou pressionado contra aquela árvore. E ele assistiu em silêncio enquanto Ianthe parava para pegar uma pedra lascada e cinza, mais ou menos do tamanho de uma maçã.
- Ponha sua mão direita sobre aquele pedregulho. - Ela obedeceu, embora um tremor corresse sua espinha abaixo. 
Sua mente batia e debatia contra mim, como um peixe preso na linha. Eu enfiei minhas garras mentais cada vez mais fundo, e alguma voz interior dela começou a gritar.
- Bata sua mão com a pedra o mais forte que puder até que eu diga para parar.
A mão que ela pusera nele, e em tantos outros.
Ianthe levantou a pedra. O primeiro impacto foi abafado, um baque molhado.
O segundo foi um ruído agudo de verdade.
O terceiro tirou sangue.
Seu braço se levantava e abaixava, seu corpo tremendo de agonia.
E eu disse a ela, muito claramente, “Você nunca mais vai tocar outra pessoa contra a vontade dela. Nunca se convencerá de que elas realmente desejam seus avanços; que elas estão só fazendo joguinhos. Nunca conhecerá o toque de outros a menos que eles o iniciem, a menos que seja desejado por ambos os lados.”
Crac; crac; crac.
- Você não se lembrará do que aconteceu aqui. Dirá aos outros que você caiu.
O dedo do anel dela virou-se para a direção errada.
- Você tem permissão de ver um curandeiro para consertar seus ossos. Mas não para tirar a cicatriz. E cada vez que olhar para sua mão, se lembrará de que tocar pessoas contra sua vontade tem consequências, e que se fizer de novo, tudo que você é deixará de existir. Você viverá com esse medo todos os dias e nunca saberá qual sua origem. Somente o medo de que há algo te caçando, esperando por você no instante em que abaixar a sua guarda.
Lágrimas silenciosas fluíram pelo seu rosto.
- Pode parar agora.
A pedra ensanguentada tombou na grama. Sua mão era um pouco mais do que ossos quebrados empacotados em pele retalhada.
- Ajoelhe aqui até que alguém te ache.
Ianthe caiu sobre seus joelhos, sua mão arruinada sangrando no seu robe pálido.
- Debati cortar sua garganta hoje de manhã. - Eu disse a ela. “Debati isso cada dia desde que soube que você vendeu minhas irmãs para Hybern.”, eu sorri um pouco. “Mas acho que essa é uma punição melhor. E eu espero que você viva uma longa, longa vida, Ianthe, e que nunca encontre um momento de paz.”
Encarei seu rosto por um momento um pouco mais longo. Amarrando a tapeçaria de palavras e comandos que costurara em sua mente e me virei para Lucien. Ele ajeitou a camisa e as calças.
Seus olhos arregalados deslizaram dela para mim, então para a pedra ensanguentada.
- A palavra pela qual você procura Lucien, - sussurrou uma voz feminina enganosamente leve, “é daemati.”.
Ele girou para Brannagh e Dagdan enquanto eles pisavam na clareira, sorrindo como lobos.

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