Ianthe não havia acabado.
Eu sabia – eu tinha me preparado para isso. Ela não se
foi na direção do seu templo, só a algumas milhas de distância.
Ao contrário, ela permaneceu na casa, buscando a
chance de rastejar para perto de Tamlin. Ela acreditara que ganhara terreno,
que sua declaração de justiça servida na ponta final sangrenta do chicote não
tinha sido nada além de um tapa final no rosto dos guardas que assistiram.
E quando aquela sentinela ficou arqueada sob suas
amarras, quando os outros vieram gentilmente desamarrá-lo, Ianthe apenas
incitou o grupo de Hybern para dentro da mansão para o almoço. Mas eu havia
ficado no quartel, cuidando da sentinela que gemia, levando para longe as
tigelas de água ensanguentadas enquanto o curador, pacientemente, costurava-o.
Bron e Hart pessoalmente me escoltaram para os
terrenos da mansão horas depois. Eu agradeci a cada um deles pelo nome. Então
pedi desculpas por não ter sido capaz de impedir aquilo – os esquemas de Ianthe
ou a punição injusta de seu amigo. Eu realmente quis dizer cada palavra, o soar
do chicote ainda ecoando em meus ouvidos.
Então eles falaram as palavras que eu estava
esperando. Eles se sentiam arrependidos que não tinham conseguido impedir nada
daquilo também.
Não só hoje. Mas os machucados que agora estavam
sumindo – finalmente. E sobre outros incidentes. Se eu tivesse pedido, eles
teriam me dado suas adagas para que eu cortasse suas gargantas.
Na noite seguinte eu estava correndo de volta para meu
quarto, para me trocar para o jantar, quando Ianthe fez seu próximo movimento.
Ela viria conosco para a muralha no dia seguinte.
Ela e Tamlin também.
Se era para sermos um front unido, ela declarara no
jantar, então ela desejava ver a Muralha por ela mesma.
Os príncipes de Hybern não ligaram. Mas Jurian piscou
para mim, como se ele também visse o jogo dela em movimento.
Eu fiz minha própria bagagem naquela noite.
Alis entrou logo antes de deitar, com uma terceira
sacola em suas mãos. “Já que é uma longa viagem, eu te trouxe uns suprimentos.”
Mesmo com Tamlin se juntando a nós, era muita gente
para que Atravessássemos diretamente. Então iríamos como havíamos feito antes,
por partes. Umas poucas milhas de cada vez.
Alis colocou a mochila que ela preparara ao lado da
minha. Pegou a escova de cabelo sobre a penteadeira e sinalizou para que eu
sentasse no banco acolchoado diante dela. Eu obedeci. Por alguns minutos ela
penteou meu cabelo em silêncio. E então, ela disse.
- Quando você for embora amanhã, eu também irei. -
Levantei meus olhos para os dela no espelho.
- Meus sobrinhos já se arrumaram, os pôneis estão
preparados para nos levar de volta ao território da Corte Estival finalmente.
Já faz muito tempo que vi minha casa. - Disse ela, apesar do brilho em seus
olhos.
- Eu sei como é. - Foi tudo o que disse.
- Desejo-lhe tudo de bom, senhorita. - Alis disse,
abaixando a escova de cabelo e começando a trançar meu cabelo nas costas. “Pelo
resto dos seus dias, não importa o quão longo eles sejam, desejo tudo de bom.”
Deixei que ela terminasse a trança, então girei no
banco para pegar os dedos finos dela entre os meus. “Nunca diga a Tarquinn que
me conhece”, suas sobrancelhas subiram.
- Há um Ruby de sangue com meu nome dele. - Eu
esclareci.
Mesmo sua pele cor de casca de árvore pareceu
esmaecer. Ela compreendeu perfeitamente bem: Eu era uma inimiga caçada pela
Corte Estival. Só minha morte seria aceita como pagamento pelos meus
crimes.
Alis apertou minha mão. “Rubis de sangue ou não, você
sempre terá uma amiga na Corte Estival”.
Minha garganta falhou. “E você sempre terá uma na
minha.” Eu prometi a ela.
Ela sabia de que corte eu falava. E não demonstrou
medo.
***
As sentinelas nem sequer olharam para Tamlin e falaram
com ele somente o estritamente necessário. Bron e Hart e outros três se
juntariam a nós. Eles haviam me visto buscando notícias de seu amigo antes do
amanhecer – uma cortesia que eu sabia que ninguém mais havia feito.
Atravessar parece como vagar na lama. De fato, meus
poderes se transformaram mais num fardo do que em ajuda. Eu tinha uma dor de
cabeça pulsante pela hora do almoço e passara a última parte da jornada tonta e
desorientada enquanto nós atravessávamos e atravessávamos.
Chegamos e acampamos praticamente em silêncio. Quieta
e de maneira tímida, eu pedi para dividir uma tenda com Ianthe ao invés de
Tamlin, demonstrando estar ávida para consertar o talho que aquelas chicotadas
tinham feito entre nós. Mas eu fiz mais do que poupar Lucien das atenções dela,
colocara Tamlin na linha.
O jantar foi feito e comido. Os sacos de dormir
colocados para fora e Tamlin ordenou Bron e Hart que ficassem no primeiro turno.
Deitar do lado de Ianthe sem cortar sua garganta era
um exercício de paciência e controle.
Mas sempre que eu sentia a faca debaixo do
travesseiro, ela parecia sussurrar o nome dela, então me lembrava do nome dos
meus amigos. Da família que estava viva – se curando no Norte.
Eu repeti seus nomes em silêncio, de novo e de novo na
escuridão. Rhysand. Mor. Cassian. Amren. Azriel. Elain. Nestha.
Pensei em como eu os tinha visto pela última vez, tão
machucados e sangrando. Pensei nos gritos de Cassian enquanto suas asas eram
retalhadas; da ameaça de Azriel enquanto o rei avançava para Mor. Nestha,
lutando a cada passo à frente contra o Caldeirão.
Meu objetivo era maior que minha vingança. Meu
propósito maior do que meu ganho pessoal.
A aurora irrompeu e eu me vi com a palma da mão
enrolada na guarda de minha adaga. Eu a desembainhei quando me sentei, olhando
para baixo, para a sacerdotisa que dormia. A macia coluna de seu pescoço
parecia brilhar no sol matinal que vazava por entre os tecidos da tenda.
Pesei a faca em minha mão.
Não sei se havia nascido com a capacidade de perdoar.
Não para os terrores infligidos naqueles que eu amava. Por mim, eu não me
importava – não muito. Mas havia algum pilar de aço fundamental em mim que não
se dobrava ou quebrava. Que não conseguia suportar a ideia de deixar que essas
pessoas saíssem ilesas pelo que elas fizeram.
Os olhos de Ianthe se abriram, o verde-azulado límpido
como sua tiara descartada. Eles foram direto para a faca em minha mão, então
para meu rosto.
- Não se pode ser cuidadosa demais quando se divide o
acampamento com inimigos. - Eu disse.
Eu podia jurar que algo como medo brilhou nos olhos
dela. “Hybern não é nosso inimigo”, ela disse com pouco fôlego. Pela sua
palidez quando eu saí da tenda, eu soube que meu sorriso de resposta tinha
feito seu trabalho.
***
Lucien e Tamlin mostraram aos gêmeos onde ficavam os
talhos na Muralha. Assim como haviam feito com as duas primeiras, eles passaram
a maior parte do tempo analisando-a, buscando nos arredores. Me mantive por
perto dessa vez, observando-os, minha presença agora nada menos do que um
relativo e inofensivo incômodo. Brincávamos com nossos joguinhos de poder,
ficara estabelecido que eu podia morder quando quisesse, mas estávamos nos
tolerando uns aos outros.
- Aqui. - Brannagh murmurou para Dagdan, apontando o
queixo para a divisória invisível. As únicas marcas eram as árvores diferentes:
no nosso lado eram brilhantes, de um verde fresco primaveril. No outro lado
eram escuras, largas e se curvavam levemente com o calor – a temperatura do
verão.
- A primeira era melhor. - Dagdan contou.
Eu sentei sobre um pequeno tronco, descascando uma
maçã com uma faca pareada.
- Próxima da costa oeste também. - Ele adicionou à sua
gêmea.
- Essa é mais perto do continente – do estreito.
Eu cortei fundo na carne da maçã, cavando um pedaço
grande de sua carne branca.
- Sim, mas teríamos mais acesso aos suprimentos do
Grão-Senhor.
O dito Grão-Senhor havia saído com Jurian, havia ido
caçar por mais comida além dos sanduíches que havíamos empacotado. Ianthe havia
ido para uma fonte próxima para rezar e eu não tinha ideia nenhuma de onde
Lucien ou as sentinelas estavam.
Bom. Mais fácil pra mim enquanto eu empurrava um
pedaço da maçã para minha boca e dizia. “Eu diria para ficarem com essa”
Eles se viraram para mim, Brannagh me olhando com
desprezo e as sobrancelhas de Dagdan altas. “O que você sabe sobre qualquer
coisa disso?” - Brannagh demandou.
Eu dei de ombros, cortando um outro pedaço de maçã.
- Vocês dois falam mais alto do que imaginam.
Eles trocaram olhares acusatórios entre si.
Orgulhosos, arrogantes, cruéis. Estava já há quinze dias aturando suas
posturas. “A menos que vocês queiram arriscar dar tempo a outras Cortes para se
reunirem e interceptarem vocês antes que possam cruzar o estreito, eu
escolheria essa.”
Brannagh revirou os olhos.
Eu prossegui, divagando e entediada. “Mas o que eu
sei? Vocês ficaram encolhidos naquela ilhota de vocês por quinhentos anos.
Claramente vocês sabem mais sobre Prythian e como movimentar exércitos aqui do
que eu.”
Brannagh chiou.
- Isso não se trata de exércitos, então vou confiar
que você manterá sua boca fechada até que tenhamos uso para você.
Eu funguei. “Você quer dizer que toda essa maluquice
não tem sido sobre achar um lugar para passar pela Muralha, usar o Caldeirão e
também transportar a massa dos seus exércitos para cá?”
Ela riu, balançando a cortina negra de seu cabelo
sobre seu ombro, “O Caldeirão não é para transportar exércitos brutos. Ele é
para remodelar mundos. É para trazer abaixo essa odiosa Muralha e reclamemos o
que nós fomos.”
Eu somente cruzei minhas pernas. “Achei que com um
exército de dez mil vocês não precisariam de objetos mágicos para fazer seu
trabalho sujo.”
- Nosso exército é dez vezes isso, garota. - Brannagh
zombou. “E o dobro desse número se contar com nossos aliados em Vallahan,
Montesere e Rask”.
Duzentos mil. Que a Mãe nos salve.
- Vocês certamente estiveram ocupados nesses últimos
anos. - Eu os analisei, totalmente perplexos. “Por que não atacar quando
Amarantha tinha o controle da ilha?”
- O rei ainda não tinha achado o Caldeirão, apesar de
todos os anos buscando. Serviu ao seu propósito deixar que ela fizesse esse
experimento, em como quebrar essas pessoas. E serviu como uma boa motivação
para nossos aliados no continente se juntarem à nós. Sabendo eles o que os
esperaria.
Terminei minha maçã e cuspi seu centro nas florestas.
Eles observaram-no voar como dois cachorros acompanhando um faisão.
- Então, todos vão convergir para cá? Supostamente eu
tenho de bancar a anfitriã para tantos soldados?
- Nossa própria força cuidará de Prythian antes de se
unir às outras unidades. Nossos comandantes estão se preparando enquanto
conversamos.
- Vocês devem achar que podem mesmo perder se estão se
importando em usar o Caldeirão para ajuda-los a ganhar.
- O Caldeirão é vitória. Vai limpar esse mundo todo de
novo.
Ergui minhas sobrancelhas num irreverente cinismo.
- E vocês precisam desse exato lugar para liberá-lo?
- Esse exato lugar. - Dagdan disse, com uma mão no
cabo da espada. “Existe porque uma pessoa ou objeto de grande poder passou por
ele. O Caldeirão estudará o trabalho feito – e amplificará até que a Muralha
colapse inteiramente. Será um processo cuidadoso e complexo e um que, eu
duvido, uma mente mortal pode alcançar.”
- Provavelmente. Embora essa mente mortal conseguiu
resolver a charada de Amarantha – e destruí-la.
Brannagh meramente se virou de costas para a Muralha.
- Você acha que Hybern deixou-a viver por tanto tempo
nessas terras pelo quê? Melhor ter alguém para fazer seu trabalho sujo.
***
Eu tinha o que eu precisava.
Tamlin e Jurian ainda estavam fora, caçando. Os
príncipes estavam preocupados, e eu tinha mandando as sentinelas buscarem-me
mais água, afirmando que meus machucados ainda doíam e eu queria fazer um
cataplasma para eles.
Eles pareciam, definitivamente, irritados com aquilo.
Não comigo – mas com quem havia me dado aqueles machucados. Quem havia
escolhido Ianthe ao invés deles – e Hybern sobre sua honra e povo.
Eu trouxera três mochilas, mas eu só precisaria de
uma. Aquela que eu tinha cuidadosamente rearrumado com os suprimentos de Alis,
agora enfiados entre tudo que antecipei que precisaria para me livrar deles e
ir embora. Aquela que trouxera comigo em cada uma das viagens à Muralha, só
para caso de precisar. E agora...
Eu tinha números. Eu tinha um propósito, eu tinha
localizações específicas e nomes de territórios estrangeiros. Mas mais do que
isso, eu tinha um povo que perdera a fé em sua GrãSacerdotisa. Eu tinha
sentinelas que estavam começando a se rebelar contra seu Grão-Senhor. E como
resultado dessas coisas, eu tinha os príncipes reais de Hybern em dúvida sobre
a força dos seus aliados aqui. Eu tinha preparado essa corte para cair. Não por
forças externas – mas por suas guerras internas.
E eu tinha que sair limpa disso antes que tudo
acontecesse. Antes que a próxima fração do meu plano caísse no seu lugar.
Aquele grupo retornaria sem mim. E para manter a ilusão de força, Tamlin e
Ianthe seriam forçados a mentir – para onde eu teria ido.
E talvez um dia ou dois depois disso, uma dessas
sentinelas revelaria as novidades, uma armadilha cuidadosa que eu tinha
enrolado em sua cabeça, como um dos meus laços.
Eu fugira pela minha vida – depois de quase ter sido
morta pelo príncipe e princesa de Hybern. Eu plantara imagens em sua mente do
meu corpo brutalizado, as marcas consistentes do que Dagdan e Brannagh já
haviam revelado ser o seu estilo. Ele as descreveria em detalhes – descreveria
como ele me ajudou a fugir antes que fosse tarde demais. Como eu fugi pela
minha vida, quando Tamlin e Ianthe se recusaram a interferir, a arriscar a
aliança deles com Hybern.
E, quando a sentinela revelasse a verdade, não mais
capaz de suportar aquilo tudo quando ele via o quão piedoso era meu destino
confinado nas mãos de Tamlin e Ianthe, da mesma forma que Tamlin se bandeara
para o lado de Ianthe no dia em que ele flagelara aquela sentinela...
Quando ele descrevesse o que Hybern tinha feito a mim,
à Quebradora de Maldições, sua nova apontada Abençoada pelo Caldeirão, antes
que eu fugisse pela minha vida...
Não haveria mais aliança. Pois não haveria nenhuma
sentinela ou habitante dessa corte que ficaria do lado de Tamlin ou Ianthe
depois disso. Depois de mim.
Eu me escondi em minha tenda para pegar minha mochila,
meus passos leves e rápidos. Ouvindo, quase nem respirando, eu escaneei o
acampamento e o bosque.
Mais uns segundos extras e eu tomara o boldrié de
facas de Tamlin que ele havia deixado em sua tenda. Eles atrapalhariam quando
usasse arco e flecha, ele me explicara essa manhã.
Seu peso era considerável, eu notei enquanto amarrava
eles ao meu peito. Facas de luta Illyrianas.
Casa. Eu estava indo para casa.
Não me importei em olhar para trás, para o acampamento,
enquanto eu escorregava para o lado norte da linha de árvores. Se eu
atravessasse sem parar entre espaços, eu estaria no pé das colinas em uma hora
– e teria desaparecido por uma das cavernas não muito longe depois disso.
Eu fiz cerca de noventa e um metros dentro da
cobertura das árvores antes que estacasse.
Eu ouvi Lucien primeiro
- Se afaste.
Uma risada feminina e baixa.
Tudo em mim parou e ficou gelado àquele som. Já tinha
ouvido antes – nas memorias de Rhysand.
Continue indo. Eles estavam distraídos, por mais
horrível que fosse.
Continue, continue, continue.
- Achei que você me procuraria depois do Rito. -
Ianthe ronronou. Eles não podiam estar a mais de nove metros dentro das
árvores. Longe o bastante para não ouvir minha presença, se eu fosse quieta o
bastante.
- Eu fui obrigado a fazer o Rito. - Lucien cuspiu.
“Aquela noite não foi produto de desejo, acredite em mim.”
- Nos divertimos, você e eu.
- Sou um Macho com uma Parceira agora.
Cada segundo a mais era o sino da minha morte soando.
Eu antecipara tudo à queda; há muito já tinha parado de sentir culpa ou dúvida
sobre meus planos. Não com Alis agora a salvo.
E ainda- ainda-
- Você não age assim com a Feyre. - Uma ameaça
envolvida em seda.
- Você está enganada.
- Estou? - Galhos e folhas foram amassados, como se
ela estivesse circundando-o, “Você põe suas mãos sobre ela inteira.”
Eu tinha feito meu trabalho tão bem, provocado tanto
ciúme nela com cada minuto e desculpa que eu achava para que Lucien me tocasse
em sua presença, na presença de Tamlin.
- Não me toque. Ele rosnou.
E então eu estava me mexendo.
Mascarei o som de minhas pegadas, silenciosa como uma
pantera enquanto eu andava para chegar àquela pequena clareira onde eles
estavam.
Onde Lucien estava, de costas para uma árvore – com
algemas de uma pedra azul ao redor de seus pulsos.
Já havia visto aquilo antes. Em Rhys, para imobilizar
seu poder. Pedra escavada das terras apodrecidas de Hybern, capazes de anular
mágica. E nesse caso... Segurando Lucien contra aquela árvore, enquanto Ianthe
analisava-o como uma cobra ante sua próxima refeição.
Ela deslizou uma mão nos amplos painéis de seu peito,
de sua barriga.
E os olhos de Lucien foram para mim enquanto eu pisava
entre as árvores, medo e humilhação enrubescendo sua pele dourada.
- Basta. - Eu disse.
Ianthe virou sua cabeça para mim. Seu sorriso era
inocente, afetado. Mas eu a vi notar a mochila, o boldrié de Tamlin. Larguei
ambos.
- Estávamos no meio de um joguinho. Não estávamos,
Lucien?
Ele não respondeu.
E a visão daquelas algemas nele, da forma que ela o
havia prendido na armadilha, a visão da mão dela ainda na barriga dele-
- Voltaremos para o acampamento assim que terminarmos.
- Ela disse, se virando para ele de novo. Sua mão escorregou para mais baixo,
não para seu próprio prazer, mas para simplesmente jogar na minha cara que ela
pode-
Eu ataquei.
Não com minhas facas ou magia, mas com minha mente.
Eu rasguei o escudo que tinha mantido ao seu redor para
evitar o controle dos gêmeos e me atirei contra sua consciência.
Uma máscara sobre um rosto decadente. Assim que era
como estar dentro daquela linda cabeça e achar coisas odiosas dentro. Uma
trilha de machos que ela tinha usado seu poder ou não para força-los para ir
para cama, convencida do seu direito sobre eles. Eu empurrei de novo sobre o
puxão daquelas memórias, me controlando. “Tire suas mãos dele.”
Ela tirou.
- Tire as algemas dele.
A pele de Lucien não tinha cor enquanto Ianthe me
obedecia, seu rosto quase vago, flexível. As algemas de pedra azul caíram no
chão musgoso.
A camisa de Lucien estava torta, o botão de cima de
sua calça aberto.
O rugido que encheu minha mente era tão alto que eu
mal podia me ouvir enquanto eu dizia. “Pegue aquela pedra.”
Lucien continuou pressionado contra aquela árvore. E
ele assistiu em silêncio enquanto Ianthe parava para pegar uma pedra lascada e
cinza, mais ou menos do tamanho de uma maçã.
- Ponha sua mão direita sobre aquele pedregulho. - Ela
obedeceu, embora um tremor corresse sua espinha abaixo.
Sua mente batia e debatia contra mim, como um peixe
preso na linha. Eu enfiei minhas garras mentais cada vez mais fundo, e alguma
voz interior dela começou a gritar.
- Bata sua mão com a pedra o mais forte que puder até
que eu diga para parar.
A mão que ela pusera nele, e em tantos outros.
Ianthe levantou a pedra. O primeiro impacto foi
abafado, um baque molhado.
O segundo foi um ruído agudo de verdade.
O terceiro tirou sangue.
Seu braço se levantava e abaixava, seu corpo tremendo
de agonia.
E eu disse a ela, muito claramente, “Você nunca mais
vai tocar outra pessoa contra a vontade dela. Nunca se convencerá de que elas
realmente desejam seus avanços; que elas estão só fazendo joguinhos. Nunca
conhecerá o toque de outros a menos que eles o iniciem, a menos que seja
desejado por ambos os lados.”
Crac; crac; crac.
- Você não se lembrará do que aconteceu aqui. Dirá aos
outros que você caiu.
O dedo do anel dela virou-se para a direção errada.
- Você tem permissão de ver um curandeiro para
consertar seus ossos. Mas não para tirar a cicatriz. E cada vez que olhar para
sua mão, se lembrará de que tocar pessoas contra sua vontade tem consequências,
e que se fizer de novo, tudo que você é deixará de existir. Você viverá com
esse medo todos os dias e nunca saberá qual sua origem. Somente o medo de que
há algo te caçando, esperando por você no instante em que abaixar a sua guarda.
Lágrimas silenciosas fluíram pelo seu rosto.
- Pode parar agora.
A pedra ensanguentada tombou na grama. Sua mão era um
pouco mais do que ossos quebrados empacotados em pele retalhada.
- Ajoelhe aqui até que alguém te ache.
Ianthe caiu sobre seus joelhos, sua mão arruinada
sangrando no seu robe pálido.
- Debati cortar sua garganta hoje de manhã. - Eu disse
a ela. “Debati isso cada dia desde que soube que você vendeu minhas irmãs para
Hybern.”, eu sorri um pouco. “Mas acho que essa é uma punição melhor. E eu
espero que você viva uma longa, longa vida, Ianthe, e que nunca encontre um
momento de paz.”
Encarei seu rosto por um momento um pouco mais longo.
Amarrando a tapeçaria de palavras e comandos que costurara em sua mente e me
virei para Lucien. Ele ajeitou a camisa e as calças.
Seus olhos arregalados deslizaram dela para mim, então
para a pedra ensanguentada.
- A palavra pela qual você procura Lucien, - sussurrou
uma voz feminina enganosamente leve, “é daemati.”.
Ele girou para Brannagh e Dagdan enquanto eles pisavam
na clareira, sorrindo como lobos.
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