segunda-feira, 8 de maio de 2017

CHAPTER 05

Eu me arrastei de volta para a mansão duas horas depois da meia-noite, cansada demais para ficar acordada até o amanhecer. 
Especialmente depois de notar a forma como Tamlin estava me olhando, lembrando-se do amanhecer no ano passado quando ele me arrastara para longe dos outros e me beijou até o sol nascer. 
Eu pedi a Lucien que me acompanhasse, e ele se mostrou mais do que feliz em fazê-lo, considerando que seu próprio status como Parceiro de outra pessoa fez com que qualquer companhia feminina perdesse a graça nos últimos tempos. Além disso, tinha o fato de que Ianthe vinha tentando pegá-lo sozinho o dia todo para perguntar sobre o que acontecera na cerimônia. 
Eu coloquei uma camisola, uma daquelas coisas curtas e rendadas que eu uma vez usara para a satisfação de Tamlin, e agora me sentia feliz por vestir graças ao suor do dia que se grudava em minha pele, e me joguei na cama. 
Por quase meia hora eu me virei sobre os lençois, virando e rolando, me debatendo. 
O Attor. A Tecelã. Minhas irmãs sendo jogadas no Caldeirão. Todos eles distorcidos e enrolados em volta de mim. E eu os deixei. 
Quase todos ainda estavam celebrando quando eu gritei, um choro curto e agudo que me fez pular da cama. 
Meu coração pulsava em minhas veias e em meus ossos conforme eu abria a porta, suada e abatida, e cruzava o corredor. Lucien me atendeu na segunda batida. 
- Eu te ouvi... o que aconteceu. - Ele me analisou, seu olho castanho arregalado ao perceber meu cabelo despenteado, minha camisola suada. 
Eu engoli seco, uma pergunta silenciosa em meu rosto, e ele assentiu, recuando para dentro do quarto e me deixando entrar. Nu da cintura para cima, ele tinha conseguido enfiar as calças antes de abrir a porta, e as abotoou apressadamente enquanto eu passava. 
O quarto dele tinha sido decorado nas cores da Corte Outonal – o único tributo à sua casa que ele deixaria passar – e eu inspecionei o espaço escurecido pela noite, os lençóis amassados. Ele se empoleirou no braço de uma poltrona diante do fogo escuro, e me observou enquanto eu torcia minhas mãos, parada no centro de um tapete carmesim. 
- Eu sonho sobre isso. - Eu admiti. "Sob a Montanha. E quando eu acordo, não consigo lembrar onde estou." Levantei meu braço esquerdo, agora não mais marcado. "Não consigo lembrar quando estou."
Verdade e parcialmente mentira. Eu ainda sonhava sobre aqueles dias horríveis, mas isso não me consumia mais. Isso não me fazia correr para o banheiro no meio da noite e vomitar minhas tripas para fora. 
- Sobre o que você sonhou esta noite? - Ele perguntou sobriamente. 
Eu arrastei o meu olhar para ele, assombrado e sem vida. "Ela me tinha pregada à parede. Como Claire Beddor. E o Attor estava..."
Eu estremeci, correndo minhas mãos em meu rosto. 
Lucien se levantou, caminhando em minha direção. As ondas de medo e dor das minhas palavras eram disfarce o suficiente para meu cheiro, para mascarar meu próprio poder à medida que minhas armadilhas sombrias captavam uma vibração suave na casa. 
Lucien parou a quinze centímetros de mim. Ele sequer se opôs quando eu joguei meus braços em volta do pescoço dele e enterrei meu rosto em seu peito quente e nu. Era água do mar, presente de Tarquinn, que saíam de meus olhos, escorriam por meu rosto e caíam na pele dourada dele.
Lucien soltou um suspiro pesado e deslizou um braço em volta de minha cintura, o outro enroscado em meu cabelo para apoiar minha cabeça.
- Sinto muito. - Ele murmurou. "Sinto muito."
Ele me segurava, afagando minhas costas de maneira tranquilizadora, e eu parei meu choro, aquelas lágrimas de água do mar secando como areia molhada sob o sol. 
Eu afastei minha cabeça de seu peito esculpido por fim, meus dedos se enterrando nos músculos rígidos dos ombros dele enquanto eu fitava seu rosto preocupado. Eu respirava fundo, pesadamente, e minhas sobrancelhas se juntavam e minha boca se abria enquanto–
- O que está acontecendo.
A cabeça de Lucien se virou na direção da porta. 
Tamlin pairava lá, seu rosto uma máscara de calma e frieza. O começo de garras cintilava nos nós de seus dedos. Nós nos afastamos, rápidos demais para parecer casual.
- Eu tive um pesadelo. - Expliquei, ajeitando minha camisola. "Eu... Eu não queria acordar a casa."
Tamlin apenas encarava Lucien, cuja boca tinha se retraído em uma fina linha ao notar aquelas garras, ainda parcialmente à mostra. 
- Eu tive um pesadelo. - Eu repeti mais bruscamente, agarrando o braço de Tamlin e puxando-o para fora do quarto antes que Lucien sequer abrisse a boca. 
Fechei a porta, mas ainda podia sentir que a atenção de Tamlin continuava fixa no macho atrás da porta. Ele não recuou suas garras. Tampouco as colocou para fora por inteiro. Eu caminhei os poucos metros até meu quarto, observando Tamlin avaliar o corredor. A distância entre minha porta e a de Lucien. "Boa noite," eu disse, e fechei a porta na cara de Tamlin. 
Eu esperei os cinco minutos necessários para Tamlin decidir não matar Lucien, e sorri. 
Perguntei-me se Lucien havia encaixado as peças. Que eu sabia que Tamlin viria ao meu quarto naquela noite, depois que eu dera a ele tantos toques e olhares tímidos hoje. Que eu havia vestido a camisola mais indecente que eu possuía não por causa do calor, mas para que quando minhas armadilhas invisíveis me alertassem de que Tamlin finalmente criara coragem para vir ao meu quarto, eu faria o meu papel. 
Um pesadelo forjado, a evidência colocada em seu lugar, nos meus lençóis destruídos. Eu deixara a porta de Lucien aberta, ele estando distraído e desavisado de meus motivos para sequer se incomodar em fechá-la, ou notar o escudo de ar que eu tinha colocado em volta do quarto a fim de que ele não ouvisse ou cheirasse Tamlin quando ele chegasse. 
Até que Tamlin nos viu, entrelaçados, minha camisola desalinhada, e o jeito que nos encarávamos tão intensamente, tão cheio de emoção, que as únicas alternativas era que estávamos começando ou terminando alguma coisa. Que nós sequer tínhamos notado Tamlin bem ali – e aquele escudo invísivel desaparecera antes que ele pudesse senti-lo. 
Um pesadelo, eu dissera a Tamlin. 
Eu era o pesadelo.
Aproveitando-me daquilo que Tamlin tinha temido desde o meu primeiro dia aqui. 
Eu não me esquecera daquela discussão que ele havia tido com Lucien há um longo tempo atrás. O aviso que ele havia dado a ele para que parasse de flertar comigo. Para ficar longe. O medo de que eu gostaria mais do lorde ruivo do que dele e que isso ameaçaria cada um de seus planos. Fique longe, ele havia dito a Lucien. 
Eu não tinha a menor dúvida de que Tamlin estava agora mesmo analisando cada olhar e cada conversa que tivemos desde então. Cada uma das vezes que Lucien tinha interferido em minha defesa, tanto Sob a Montanha quanto depois. Ponderando o quanto aquele laço de parceria com Elain influenciava seu amigo. 
Considerando a forma como, ainda essa manhã, Lucien havia se ajoelhando perante a mim, jurando lealdade à uma deusa recém-nascida, como se ambos tivéssemos sido abençoados pelo Caldeirão. 
Eu me deixei sorrir por mais um momento, e então me vesti. 
Havia mais trabalho a ser feito.

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