Eu me arrastei de volta para a mansão duas horas
depois da meia-noite, cansada demais para ficar acordada até o amanhecer.
Especialmente depois de notar a forma como Tamlin
estava me olhando, lembrando-se do amanhecer no ano passado quando ele me
arrastara para longe dos outros e me beijou até o sol nascer.
Eu pedi a Lucien que me acompanhasse, e ele se mostrou
mais do que feliz em fazê-lo, considerando que seu próprio status como Parceiro
de outra pessoa fez com que qualquer companhia feminina perdesse a graça nos
últimos tempos. Além disso, tinha o fato de que Ianthe vinha tentando pegá-lo
sozinho o dia todo para perguntar sobre o que acontecera na cerimônia.
Eu coloquei uma camisola, uma daquelas coisas curtas e
rendadas que eu uma vez usara para a satisfação de Tamlin, e agora me sentia
feliz por vestir graças ao suor do dia que se grudava em minha pele, e me
joguei na cama.
Por quase meia hora eu me virei sobre os lençois,
virando e rolando, me debatendo.
O Attor. A Tecelã. Minhas irmãs sendo jogadas no
Caldeirão. Todos eles distorcidos e enrolados em volta de mim. E eu os deixei.
Quase todos ainda estavam celebrando quando eu gritei,
um choro curto e agudo que me fez pular da cama.
Meu coração pulsava em minhas veias e em meus ossos
conforme eu abria a porta, suada e abatida, e cruzava o corredor. Lucien me atendeu
na segunda batida.
- Eu te ouvi... o que aconteceu. - Ele me analisou,
seu olho castanho arregalado ao perceber meu cabelo despenteado, minha camisola
suada.
Eu engoli seco, uma pergunta silenciosa em meu rosto,
e ele assentiu, recuando para dentro do quarto e me deixando entrar. Nu da
cintura para cima, ele tinha conseguido enfiar as calças antes de abrir a
porta, e as abotoou apressadamente enquanto eu passava.
O quarto dele tinha sido decorado nas cores da Corte
Outonal – o único tributo à sua casa que ele deixaria passar – e eu inspecionei
o espaço escurecido pela noite, os lençóis amassados. Ele se empoleirou no
braço de uma poltrona diante do fogo escuro, e me observou enquanto eu torcia
minhas mãos, parada no centro de um tapete carmesim.
- Eu sonho sobre isso. - Eu admiti. "Sob a
Montanha. E quando eu acordo, não consigo lembrar onde estou." Levantei
meu braço esquerdo, agora não mais marcado. "Não consigo lembrar quando
estou."
Verdade e parcialmente mentira. Eu ainda sonhava sobre
aqueles dias horríveis, mas isso não me consumia mais. Isso não me fazia correr
para o banheiro no meio da noite e vomitar minhas tripas para fora.
- Sobre o que você sonhou esta noite? - Ele perguntou
sobriamente.
Eu arrastei o meu olhar para ele, assombrado e sem
vida. "Ela me tinha pregada à parede. Como Claire Beddor. E o Attor
estava..."
Eu estremeci, correndo minhas mãos em meu rosto.
Lucien se levantou, caminhando em minha direção. As
ondas de medo e dor das minhas palavras eram disfarce o suficiente para meu
cheiro, para mascarar meu próprio poder à medida que minhas armadilhas sombrias
captavam uma vibração suave na casa.
Lucien parou a quinze centímetros de mim. Ele sequer
se opôs quando eu joguei meus braços em volta do pescoço dele e enterrei meu
rosto em seu peito quente e nu. Era água do mar, presente de Tarquinn, que
saíam de meus olhos, escorriam por meu rosto e caíam na pele dourada dele.
Lucien soltou um suspiro pesado e deslizou um braço em
volta de minha cintura, o outro enroscado em meu cabelo para apoiar minha
cabeça.
- Sinto muito. - Ele murmurou. "Sinto
muito."
Ele me segurava, afagando minhas costas de maneira
tranquilizadora, e eu parei meu choro, aquelas lágrimas de água do mar
secando como areia molhada sob o sol.
Eu afastei minha cabeça de seu peito esculpido por
fim, meus dedos se enterrando nos músculos rígidos dos ombros dele enquanto eu
fitava seu rosto preocupado. Eu respirava fundo, pesadamente, e minhas
sobrancelhas se juntavam e minha boca se abria enquanto–
- O que está acontecendo.
A cabeça de Lucien se virou na direção da porta.
Tamlin pairava lá, seu rosto uma máscara de calma e
frieza. O começo de garras cintilava nos nós de seus dedos. Nós nos
afastamos, rápidos demais para parecer casual.
- Eu tive um pesadelo. - Expliquei, ajeitando minha
camisola. "Eu... Eu não queria acordar a casa."
Tamlin apenas encarava Lucien, cuja boca tinha se
retraído em uma fina linha ao notar aquelas garras, ainda parcialmente à mostra.
- Eu tive um pesadelo. - Eu repeti mais bruscamente,
agarrando o braço de Tamlin e puxando-o para fora do quarto antes que Lucien
sequer abrisse a boca.
Fechei a porta, mas ainda podia sentir que a atenção
de Tamlin continuava fixa no macho atrás da porta. Ele não recuou suas garras.
Tampouco as colocou para fora por inteiro. Eu caminhei os poucos metros
até meu quarto, observando Tamlin avaliar o corredor. A distância entre minha
porta e a de Lucien. "Boa noite," eu disse, e fechei a porta na cara
de Tamlin.
Eu esperei os cinco minutos necessários para Tamlin
decidir não matar Lucien, e sorri.
Perguntei-me se Lucien havia encaixado as peças. Que
eu sabia que Tamlin viria ao meu quarto naquela noite, depois que eu dera a ele
tantos toques e olhares tímidos hoje. Que eu havia vestido a camisola mais
indecente que eu possuía não por causa do calor, mas para que quando minhas
armadilhas invisíveis me alertassem de que Tamlin finalmente criara coragem
para vir ao meu quarto, eu faria o meu papel.
Um pesadelo forjado, a evidência colocada em seu
lugar, nos meus lençóis destruídos. Eu deixara a porta de Lucien aberta, ele
estando distraído e desavisado de meus motivos para sequer se incomodar em
fechá-la, ou notar o escudo de ar que eu tinha colocado em volta do quarto a
fim de que ele não ouvisse ou cheirasse Tamlin quando ele chegasse.
Até que Tamlin nos viu, entrelaçados, minha camisola
desalinhada, e o jeito que nos encarávamos tão intensamente, tão cheio de
emoção, que as únicas alternativas era que estávamos começando ou terminando
alguma coisa. Que nós sequer tínhamos notado Tamlin bem ali – e aquele escudo
invísivel desaparecera antes que ele pudesse senti-lo.
Um pesadelo, eu dissera a
Tamlin.
Eu era o pesadelo.
Aproveitando-me daquilo que Tamlin tinha temido desde
o meu primeiro dia aqui.
Eu não me esquecera daquela discussão que ele havia
tido com Lucien há um longo tempo atrás. O aviso que ele havia dado a ele para
que parasse de flertar comigo. Para ficar longe. O medo de que eu gostaria mais
do lorde ruivo do que dele e que isso ameaçaria cada um de seus planos. Fique
longe, ele havia dito a Lucien.
Eu não tinha a menor dúvida de que Tamlin estava agora
mesmo analisando cada olhar e cada conversa que tivemos desde então. Cada uma
das vezes que Lucien tinha interferido em minha defesa, tanto Sob a Montanha
quanto depois. Ponderando o quanto aquele laço de parceria com Elain
influenciava seu amigo.
Considerando a forma como, ainda essa manhã, Lucien
havia se ajoelhando perante a mim, jurando lealdade à uma deusa recém-nascida,
como se ambos tivéssemos sido abençoados pelo Caldeirão.
Eu me deixei sorrir por mais um momento, e então me
vesti.
Havia mais trabalho a ser feito.
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