O solstício de Verão era exatamente como me lembrava:
bandeiras, fitas e guirlandas de flores por todos os lados. Tonéis de cerveja e
vinho eram arrastados até os pés das colinas que rodeavam a propriedade.
Grão-Feéricos e Feéricos inferiores se aglomerando de igual maneira para a
celebração.
Mas o que não existia no ano passado era Ianthe.
A celebração seria um sacrilégio se não agradecêssemos
antes.
Então estávamos todos de pé duas horas antes do
amanhecer, com a visão turva e ninguém pronto o bastante pra tolerar suas
cerimônias enquanto o sol se dirigia para o horizonte no dia mais longo do ano.
Me perguntava se Tarquin tinha que lidar com cerimônias tão chatas quanto essa
em seu palácio brilhante no mar. Me perguntava se tais cerimônias aconteceriam
em Adriata hoje, com o Grão-Senhor da Corte Estival, que estivera tão perto de
ser um amigo.
Até onde eu sabia, apesar dos rumores dos servos,
Tarquin nunca disse nenhuma palavra da visita que Rhys, Amren e eu fizemos para
Tamlin. O que o senhor do verão pensava das minhas atuais
circunstâncias? Não duvidava que Tarquin já tinha ouvido falar. E eu
rezei pra que ele ficasse fora disso tudo enquanto eu não terminasse o trabalho
que ainda tinha para fazer aqui.
Alis conseguiu para mim uma capa luxuosa de veludo
branco para a cavalgada pelas colinas, e Tamlin me pusera numa égua pálida como
a lua que tinha flores selvagens por toda sua crina. Se eu quisesse pintar uma
imagem de pureza seria aquela daquela manhã: meu cabelo trançado, no topo da
cabeça, coroados com uma coroa de flores de espinheiro. Coloquei um pouco de
blush em meus lábios e bochechas – um toque suave de cor – como as primeiras
pinceladas da primavera numa paisagem de inverno.
Nossa procissão chegara à colina, uma multidão de
centenas já nos aguardando, com todos os olhos voltados para mim. Mas mantive
meu olhar para frente, para onde Ianthe se postava frente à um altar de pedra
rústica repleto de flores, frutas e dos primeiros grãos do verão. O capuz de
seu robe azul pálido estava finalmente abaixado, a tiara de prata agora
descansava no topo de sua cabeça dourada.
Sorri para ela, minha égua parando obedientemente no
arco norte do semi círculo que o povo havia feito ao redor do altar de Ianthe,
nos limites da colina, e me perguntei se ela conseguia ver o lobo sorrindo por
baixo da minha roupa.
Tamlin me ajudou a descer do cavalo, a luz cinza do
céu logo antes do amanhecer brilhando com os fios dourados de sua jaqueta. Me
forcei a olhar em seus olhos quando ele me colocou na grama, consciente dos
olhares de todos os outros sobre nós. As lembranças brilharam em seu olhar – do
jeito que seus olhos fixaram em meus lábios.
Fazia um ano que ele tinha me beijado nesse mesmo dia.
Fazia um ano que tinha dançado entre essas mesmas pessoas, sem preocupações e
feliz pela primeira vez na vida e eu tinha acreditado que seria feliz e que
jamais seria tão feliz assim de novo.
Dei-lhe um pequeno e tímido sorriso enquanto aceitava
o braço que ele me estendia. Juntos nós cruzamos a grama até o altar de Ianthe,
com os príncipes de Hybern, Jurian e Lucien logo atrás.
Também me perguntava se Tamlin se lembrava daquele dia
há tantos meses atrás, quando eu usara um vestido branco diferente e onde tinha
havido também flores espalhadas. Quando meu parceiro havia me resgatado, quando
eu havia desistido de prosseguir com o casamento, com alguma parte primal de
mim sabendo que aquilo não era correto. Eu tinha acreditado que não merecera
aquilo, não queria sobrecarregar Tamlin com uma pessoa atormentada como eu
estava pelo resto da eternidade. E Rhys... Rhys teria deixado eu me casar com
ele, acreditando que eu era feliz, querendo que eu fosse feliz, mesmo que isso
acabasse por mata-lo. Mas, no momento em que eu dissera não... Ele me salvara.
Me ajudara a me salvar.
Eu olhei para Tamlin.
Mas ele estava olhando minha mão, apoiada em seu
braço. O dedo vazio onde o anel antes estava. O que ele havia feito com isso –
Onde ele pensava que estava o anel, se Lucien tinha escondido a evidência? Por
uma batida de coração eu tive pena dele.
Tive pena não só porque Lucien havia mentido para ele,
mas Alis também. Quantos outros haviam visto a verdade, meu sofrimento – e
tentaram poupa-lo disso?
Tinham visto meu sofrimento e não fizeram nada para me
ajudar.
Tamlin e eu havíamos parado na frente do altar com
Ianthe nos oferecendo um sorriso régio.
Os príncipes de Hybern trocavam os pés, sem se
incomodar de demonstrar sua impaciência. Brannagh havia feito algumas
reclamações veladas sobre o Solstício no jantar de ontem, declarando que em
Hybern eles não se preocupavam com tais odiosas coisas e iria à revelia.
Implicando, ao seu jeito, que nem deveríamos nós. Eu os ignorei enquanto Ianthe
erguia as mãos e chamava a multidão às nossas costas.
- Um solstício abençoado a todos nós!
Então começou o interminável corolário de rezas e
rituais, suas mais lindas acólitas ajudando a derramar o vinho sagrado, com as
bênçãos dos deuses das colheitas no altar, suplicando ao sol que nascesse
novamente.
Um amável número ensaiado. Lucien estava meio dormindo
atrás de mim.
Mas eu tolerei a cerimônia com Ianthe e sabia o que
estava por vir quando ela levantou a taça de vinho e começou “Assim como a luz
é mais forte hoje, deixemos que ela leve as sombras não desejadas, deixemos que
ela bana a marca escura do mal”
Golpe após golpe em meu parceiro, minha casa, mas eu
só concordei com ela.
- Poderiam os príncipes Brannagh e Dagdan nos darem a honra
de beber o vinho sagrado?
A multidão os olhou. Os príncipes piscaram, franzindo
a testa um para o outro.
Mas eu dei um passo ao lado, gesticulando para o
altar, enquanto lhes sorria lindamente.
Eles abriram as bocas, sem dúvida para recusar, mas
Ianthe não aceitaria um não como resposta.
- Bebam e deixem que nossos novos aliados se tornem
nossos amigos. - Ela declarou. “Bebam e levem pra longe a mais longa noite do
ano”
Os dois daemati estavam, sem dúvida, testando a taça
em busca de veneno, por meio de qualquer laço mágico que tivessem, mas eu
mantive o mais puro sorriso no rosto enquanto eles se aproximavam para o altar
e Brannagh esticava a mão para aceitar a taça que lhe era estendida.
Cada um malmente tomou um gole antes de dar um passo
atrás, mas Ianthe arrulhou pra eles, insistindo que ficassem atrás do altar
para presenciar a cerimônia do lado dela.
Eu a fiz ter certeza do quão enojados eles estavam com
seus rituais. O quanto eles dariam tudo de si para chutá-la de sua importância
como líder do povo assim que eles chegassem. Ela agora parecia inclinada a
convertê-los.
Mais rezas e rituais, até que Tamlin foi chamado ao
altar para acender uma vela pelas almas extintas no ano passado – e agora para
trazê-las de volta à luz assim que o sol nascesse.
Rosa começaram a manchar as nuvens atrás deles.
Jurian também foi chamado à frente para recitar uma
última prece, eu havia pedido que Ianthe acrescentasse, uma prece pelos
guerreiros que haviam lutado por nossa segurança naquele dia.
E então Lucien e eu estávamos sozinhos no círculo de
grama, o altar e o horizonte à nossa frente, e a multidão aos lados e às nossas
costas. Pela rigidez de sua postura, os dardos de seu olhar sobre o local,
sabia que ele estava compreendendo e passando por todas as rezas e em como eu
tinha trabalhado com Ianthe naquela cerimonia. Em como eu e ele estávamos na
trajetória do Sol, enquanto todos os outros haviam sido movidos para longe.
Ianthe direcionou-se para os limites da colina, seu
cabelo dourado caindo livre às costas, enquanto ela levantava os braços ao céu.
O lugar era intencional, assim como seus braços abertos.
Ela faria o mesmo gesto do Solstício de Inverno,
estaria no local exato onde nasceria o sol por entre seus braços, enchendo-os
com luz. Suas acólitas haviam marcado o local exato com uma pedra marcada,
discretamente.
Lentamente, o disco solar rompeu os tons de azul e
verde do horizonte. Luz encheu o mundo, clara e forte, nos atravessando como
uma lança. As costas de Ianthe arquearam, seu corpo agora um mero receptáculo
para que a luz do sol enchesse e, pelo que podia ver dela, seu rosto estampava
um crédulo quadro de êxtase.
O sol se ergueu, uma nota dourada ecoando pela terra.
A multidão começou a murmurar.
E a gritar.
Não para Ianthe.
Para
mim.
Para mim, resplandecente e pura em branco, começando a
brilhar com a luz do sol que passara diretamente para mim. Ninguém se preocupou
de verificar que a pedra marco de Ianthe tinha se movido um metro e meio para a
direita, estavam muito preocupados em me olhar do que espiar um vento fantasma
deslizar pela grama.
Demorou mais para Ianthe olhar do que para qualquer
outra pessoa.
Para virar e ver que a luz do sol não estava
banhando-a e enchendo-a com seu poder. Abençoando-a.
Eu tirei o tampão do poder, da mesma forma que havia
feito em Hybern, meu corpo ficando incandescente à medida que a luz me atingia.
Pura como o dia, pura como luz estelar.
- Quebradora de maldições. - Alguns murmuravam. “Abençoada”
outros cochichavam.
Eu fingi uma surpresa – surpresa e aceitação pela
escolha do Caldeirão. O rosto de Tamlin tenso com o choque, os príncipes de
Hybern nem de longe abismados.
Mas eu me virei para Lucien, minha luz tão forte que
saltava ao seu olho de metal, um amigo suplicando ao outro por ajuda. Eu
estiquei minha mão para ele. Além de nós eu podia sentir Ianthe se contorcendo
para retomar o controle, para achar um jeito de virar aquilo para ela.
Talvez Lucien também pudesse ver, pois ele tomou minha
mão e se ajoelhou na grama apertando meus dedos contra sua testa.
Como feixes de trigo ao vento, todos os outros
ajoelharam-se.
Pois em todos os seus planejamentos de rituais e
cerimônias, Ianthe nunca revelara nenhum sinal de poder ou benção. Mas Feyre
Quebradora de Maldições, aquela que guiou toda Prythian para fora da escuridão
e tirania...
Abençoada.
Sagrada. Incorruptível ante o mal.
Deixei que meu brilho se espalhasse, até que se
ondulasse pela forma ajoelhada de Lucien.
Um cavaleiro diante de sua rainha.
E, quando olhei para Ianthe e sorri de novo, deixei
que um pedacinho do lobo se mostrasse.
As festividades, ao menos, continuaram as mesmas.
Quando o estardalhaço de admiração terminara, quando
meu próprio brilho desapareceu quando o sol já ia alto por minha cabeça,
caminhamos para as colinas e campos vizinhos onde aqueles que não tinham ido à
cerimônia, já tinham ouvido falar do meu pequeno milagre.
Me mantive perto de Lucien, que estava inclinado em me
saciar, posto que todos os outros pareciam divididos entre alegria e temor,
perguntas e preocupações.
Ianthe passou as próximas seis horas tentando explicar
o que acontecera. O Caldeirão havia abençoado sua amiga, ela dizia a quem
quisesse escutar. O sol havia alterado seu curso de tão feliz que estava pelo
meu retorno. Apenas suas acólitas haviam prestado atenção e metade delas
pareciam meio interessadas.
Tamlin, no entanto, parecia o mais assustado – como se
a benção tivesse me deixado chateada, como se pudesse lembrar da mesma luz em
Hybern e não conseguisse compreender o que o perturbava tanto.
Mas o dever o manteve retribuindo agradecimentos e
desejando graças aos seus súditos, guerreiros e lordes inferiores, me deixando
livre para vagar por onde quisesse. Era parada vez ou outra por fervorosos
adoradores feéricos que desejavam tocar em minhas mãos, levar um pouco de mim.
Antes eu teria me encolhido, estremecido. Agora eu
recebia suas bênçãos de maneira beata, agradecendo e sorrindo-lhes. Alguns eram
genuínos. Não tinha nada contra o povo dessa terra, mas os cortesãos e as
sentinelas que me buscavam... eu me mostrava melhor para eles, Abençoada pelo Caldeirão, eles me
chamavam. Uma honra, eu apenas replicava.
De novo e de novo eu repetia aquelas palavras. Pelo
café da manhã e almoço, até que retornei à mansão para me refrescar e ter um
momento para mim. Na privacidade do meu quarto coloquei minha coroa de flores
sobre a penteadeira e sorri levemente para o olho tatuado na palma de minha mão
direita.
O
dia mais longo do ano,
eu disse pelo laço, mandando junto fragmentos do que acontecera na colina. Queria poder passar com você.
Ele teria gostado da minha performance, teria rido até
ficar rouco depois da expressão no rosto de Ianthe. Tinha terminado de me lavar
e estava me preparando para voltar para a Colina quando a voz de Rhysand encheu
minha mente.
Teria
sido uma honra, ele disse,
com risadas em cada palavra, passar até
mesmo um breve momento na companhia de Feyre, a Abençoada pelo Caldeirão.
Eu ri. As palavras estavam distantes, drenadas. Seja
rápida. Eu tinha de ser rápida ou arriscar a me expor. Mais do que qualquer
coisa eu precisava saber, precisava perguntar
Estão
todos bem?
Esperei, contando os minutos. Sim, estão todos bem. Quando você volta para casa, para mim?
Cada palavra era mais quieta que a outra.
Breve, eu prometi. Hybern
está aqui. Terá acabado em breve.
Ele não respondeu. E eu esperei por mais alguns
minutos e coloquei minha coroa de flores e me dirigi para a escada. Quando eu
atingi o jardim decorado, a voz falhando de Rhysand encheu minha cabeça de novo
- Queria poder passar o dia de hoje
com você também.
As palavras eram como um punho apertando meu coração.
E eu as forcei fora da mente quando retornei para a festa nas colinas, meus pés
mais pesados do que antes quando saíra dali para a casa.
Mas o almoço havia sido tranquilo e as danças
começaram.
Eu o vi esperando num dos arredores dos círculos,
observando cada movimento meu. Olhei rápido para a grama, para a multidão e
para o grupo de músicos que coaxavam sua música de tambores, rabecas e flautas,
me aproximando devagar, como uma corsa tímida.
Antes esses mesmos sons haviam me sacudido e acordado,
me fizeram dançar e dançar. Supus que agora eles nada mais eram do que mais uma
arma no meu arsenal quando me aproximei de Tamlin, abaixei meus cílios e
perguntei com carinho.
- Você dançaria comigo?
Alívio, felicidade e um pedaço de preocupação
- Sim. - Ele respirou, “Sim, é claro.”
Então eu deixei que ele me guiasse pelas danças
rápidas, girando e me inclinando, as pessoas ao redor para comemorar e bater
palmas. Dança após dança, até que o suor corria por minhas costas enquanto eu
trabalhava para manter o ritmo, manter o sorriso no rosto, lembrar de rir
quando minhas mãos estavam à distância de estrangulá-lo na garganta.
Eventualmente a música mudou para algo lento e Tamlin
nos levou junto com a melodia, quando os outros acharam seus parceiros mais
interessantes do que nos observar, ele murmurou.
- Esta manhã... você está bem?
Minha cabeça bateu de repente “Sim. Eu... eu não sei o
que foi aquilo, mas sim. Ianthe está... está brava?”
- Não sei. Ela não esperava por aquilo. Não acho que
ela lide bem com surpresas.
- Eu deveria pedir desculpas.
Seus olhos brilharam.
- Pelo que? Talvez tenha sido uma benção. Magia ainda
me surpreende. Se ela está irritada, é um problema dela.
Fingi pensar sobre o assunto, mas no fim assenti. Ele
me apertava e eu senti nojo em cada parte que nossos corpos se tocavam. Não
fazia ideia de como Rhys tinha conseguido suportar aquilo – suportar aquilo com
Amarantha, por cinco décadas.
- Você está linda hoje. - Disse Tamlin.
- Obrigada. - Me obriguei a olhar em seu rosto.
“Lucien disse que você não completou o rito no Calanmai. Que você recusou.”
E que você deixou Ianthe ficar com ele naquela caverna.
Sua garganta balançou. “Não tive estômago para isso”
E teve para fazer um acordo com Hybern, como se eu
fosse um item roubado que tinha de ser recuperado.
- Talvez essa manhã não tenha sido uma benção somente
pra mim. - Eu ofereci.
Um carinho de sua mão descendo por minhas costas foi
sua resposta.
E foi tudo o que dissemos por mais três danças até que
a fome me arrastasse para a mesa onde o jantar estava sendo servido. Deixei que
ele enchesse um prato pra mim, deixei que me servisse até que achamos um ponto
sob um carvalho velho e retorcido e ficássemos assistindo as danças e a música.
Quase perguntei se tinha valido a pena – se desistir
dessa paz tinha valido a pena só para me ter de volta.
Pois Hybern viria para cá e usaria essas terras. E não
haveria mais canto e dança, não quando eles chegassem. Mas eu fiquei quieta
enquanto a luz do sol desaparecia e a noite finalmente caía.
As estrelas brilhando sua existência, escuras e
pequenas sobre as fogueiras que brilhavam.
Eu as observei durante as longas horas da
celebração, e podia jurar que elas me faziam companhia, minhas fiéis e
silenciosas amigas.
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