segunda-feira, 8 de maio de 2017

CHAPTER 04

O solstício de Verão era exatamente como me lembrava: bandeiras, fitas e guirlandas de flores por todos os lados. Tonéis de cerveja e vinho eram arrastados até os pés das colinas que rodeavam a propriedade. Grão-Feéricos e Feéricos inferiores se aglomerando de igual maneira para a celebração.
Mas o que não existia no ano passado era Ianthe.
A celebração seria um sacrilégio se não agradecêssemos antes.
Então estávamos todos de pé duas horas antes do amanhecer, com a visão turva e ninguém pronto o bastante pra tolerar suas cerimônias enquanto o sol se dirigia para o horizonte no dia mais longo do ano. Me perguntava se Tarquin tinha que lidar com cerimônias tão chatas quanto essa em seu palácio brilhante no mar. Me perguntava se tais cerimônias aconteceriam em Adriata hoje, com o Grão-Senhor da Corte Estival, que estivera tão perto de ser um amigo.
Até onde eu sabia, apesar dos rumores dos servos, Tarquin nunca disse nenhuma palavra da visita que Rhys, Amren e eu fizemos para Tamlin. O que o senhor do verão pensava das minhas atuais circunstâncias? Não duvidava que Tarquin já tinha ouvido falar. E eu rezei pra que ele ficasse fora disso tudo enquanto eu não terminasse o trabalho que ainda tinha para fazer aqui.
Alis conseguiu para mim uma capa luxuosa de veludo branco para a cavalgada pelas colinas, e Tamlin me pusera numa égua pálida como a lua que tinha flores selvagens por toda sua crina. Se eu quisesse pintar uma imagem de pureza seria aquela daquela manhã: meu cabelo trançado, no topo da cabeça, coroados com uma coroa de flores de espinheiro. Coloquei um pouco de blush em meus lábios e bochechas – um toque suave de cor – como as primeiras pinceladas da primavera numa paisagem de inverno.
Nossa procissão chegara à colina, uma multidão de centenas já nos aguardando, com todos os olhos voltados para mim. Mas mantive meu olhar para frente, para onde Ianthe se postava frente à um altar de pedra rústica repleto de flores, frutas e dos primeiros grãos do verão. O capuz de seu robe azul pálido estava finalmente abaixado, a tiara de prata agora descansava no topo de sua cabeça dourada.
Sorri para ela, minha égua parando obedientemente no arco norte do semi círculo que o povo havia feito ao redor do altar de Ianthe, nos limites da colina, e me perguntei se ela conseguia ver o lobo sorrindo por baixo da minha roupa.
Tamlin me ajudou a descer do cavalo, a luz cinza do céu logo antes do amanhecer brilhando com os fios dourados de sua jaqueta. Me forcei a olhar em seus olhos quando ele me colocou na grama, consciente dos olhares de todos os outros sobre nós. As lembranças brilharam em seu olhar – do jeito que seus olhos fixaram em meus lábios. 
Fazia um ano que ele tinha me beijado nesse mesmo dia. Fazia um ano que tinha dançado entre essas mesmas pessoas, sem preocupações e feliz pela primeira vez na vida e eu tinha acreditado que seria feliz e que jamais seria tão feliz assim de novo. 
Dei-lhe um pequeno e tímido sorriso enquanto aceitava o braço que ele me estendia. Juntos nós cruzamos a grama até o altar de Ianthe, com os príncipes de Hybern, Jurian e Lucien logo atrás.

Também me perguntava se Tamlin se lembrava daquele dia há tantos meses atrás, quando eu usara um vestido branco diferente e onde tinha havido também flores espalhadas. Quando meu parceiro havia me resgatado, quando eu havia desistido de prosseguir com o casamento, com alguma parte primal de mim sabendo que aquilo não era correto. Eu tinha acreditado que não merecera aquilo, não queria sobrecarregar Tamlin com uma pessoa atormentada como eu estava pelo resto da eternidade. E Rhys... Rhys teria deixado eu me casar com ele, acreditando que eu era feliz, querendo que eu fosse feliz, mesmo que isso acabasse por mata-lo. Mas, no momento em que eu dissera não... Ele me salvara. Me ajudara a me salvar.
Eu olhei para Tamlin. 
Mas ele estava olhando minha mão, apoiada em seu braço. O dedo vazio onde o anel antes estava. O que ele havia feito com isso – Onde ele pensava que estava o anel, se Lucien tinha escondido a evidência? Por uma batida de coração eu tive pena dele. 
Tive pena não só porque Lucien havia mentido para ele, mas Alis também. Quantos outros haviam visto a verdade, meu sofrimento – e tentaram poupa-lo disso?
Tinham visto meu sofrimento e não fizeram nada para me ajudar.
Tamlin e eu havíamos parado na frente do altar com Ianthe nos oferecendo um sorriso régio.
Os príncipes de Hybern trocavam os pés, sem se incomodar de demonstrar sua impaciência. Brannagh havia feito algumas reclamações veladas sobre o Solstício no jantar de ontem, declarando que em Hybern eles não se preocupavam com tais odiosas coisas e iria à revelia. Implicando, ao seu jeito, que nem deveríamos nós. Eu os ignorei enquanto Ianthe erguia as mãos e chamava a multidão às nossas costas.
- Um solstício abençoado a todos nós!
Então começou o interminável corolário de rezas e rituais, suas mais lindas acólitas ajudando a derramar o vinho sagrado, com as bênçãos dos deuses das colheitas no altar, suplicando ao sol que nascesse novamente. 
Um amável número ensaiado. Lucien estava meio dormindo atrás de mim.
Mas eu tolerei a cerimônia com Ianthe e sabia o que estava por vir quando ela levantou a taça de vinho e começou “Assim como a luz é mais forte hoje, deixemos que ela leve as sombras não desejadas, deixemos que ela bana a marca escura do mal”
Golpe após golpe em meu parceiro, minha casa, mas eu só concordei com ela. 
- Poderiam os príncipes Brannagh e Dagdan nos darem a honra de beber o vinho sagrado?
A multidão os olhou. Os príncipes piscaram, franzindo a testa um para o outro.
Mas eu dei um passo ao lado, gesticulando para o altar, enquanto lhes sorria lindamente.
Eles abriram as bocas, sem dúvida para recusar, mas Ianthe não aceitaria um não como resposta.
- Bebam e deixem que nossos novos aliados se tornem nossos amigos. - Ela declarou. “Bebam e levem pra longe a mais longa noite do ano”
Os dois daemati estavam, sem dúvida, testando a taça em busca de veneno, por meio de qualquer laço mágico que tivessem, mas eu mantive o mais puro sorriso no rosto enquanto eles se aproximavam para o altar e Brannagh esticava a mão para aceitar a taça que lhe era estendida. 
Cada um malmente tomou um gole antes de dar um passo atrás, mas Ianthe arrulhou pra eles, insistindo que ficassem atrás do altar para presenciar a cerimônia do lado dela. 
Eu a fiz ter certeza do quão enojados eles estavam com seus rituais. O quanto eles dariam tudo de si para chutá-la de sua importância como líder do povo assim que eles chegassem. Ela agora parecia inclinada a convertê-los. 
Mais rezas e rituais, até que Tamlin foi chamado ao altar para acender uma vela pelas almas extintas no ano passado – e agora para trazê-las de volta à luz assim que o sol nascesse.
Rosa começaram a manchar as nuvens atrás deles.
Jurian também foi chamado à frente para recitar uma última prece, eu havia pedido que Ianthe acrescentasse, uma prece pelos guerreiros que haviam lutado por nossa segurança naquele dia. 
E então Lucien e eu estávamos sozinhos no círculo de grama, o altar e o horizonte à nossa frente, e a multidão aos lados e às nossas costas. Pela rigidez de sua postura, os dardos de seu olhar sobre o local, sabia que ele estava compreendendo e passando por todas as rezas e em como eu tinha trabalhado com Ianthe naquela cerimonia. Em como eu e ele estávamos na trajetória do Sol, enquanto todos os outros haviam sido movidos para longe. 
Ianthe direcionou-se para os limites da colina, seu cabelo dourado caindo livre às costas, enquanto ela levantava os braços ao céu. O lugar era intencional, assim como seus braços abertos.
Ela faria o mesmo gesto do Solstício de Inverno, estaria no local exato onde nasceria o sol por entre seus braços, enchendo-os com luz. Suas acólitas haviam marcado o local exato com uma pedra marcada, discretamente. 
Lentamente, o disco solar rompeu os tons de azul e verde do horizonte. Luz encheu o mundo, clara e forte, nos atravessando como uma lança. As costas de Ianthe arquearam, seu corpo agora um mero receptáculo para que a luz do sol enchesse e, pelo que podia ver dela, seu rosto estampava um crédulo quadro de êxtase.
O sol se ergueu, uma nota dourada ecoando pela terra.
A multidão começou a murmurar.
E a gritar.
Não para Ianthe.
Para mim.
Para mim, resplandecente e pura em branco, começando a brilhar com a luz do sol que passara diretamente para mim. Ninguém se preocupou de verificar que a pedra marco de Ianthe tinha se movido um metro e meio para a direita, estavam muito preocupados em me olhar do que espiar um vento fantasma deslizar pela grama. 
Demorou mais para Ianthe olhar do que para qualquer outra pessoa.
Para virar e ver que a luz do sol não estava banhando-a e enchendo-a com seu poder. Abençoando-a.
Eu tirei o tampão do poder, da mesma forma que havia feito em Hybern, meu corpo ficando incandescente à medida que a luz me atingia. Pura como o dia, pura como luz estelar.
- Quebradora de maldições. - Alguns murmuravam. “Abençoada” outros cochichavam. 
Eu fingi uma surpresa – surpresa e aceitação pela escolha do Caldeirão. O rosto de Tamlin tenso com o choque, os príncipes de Hybern nem de longe abismados. 
Mas eu me virei para Lucien, minha luz tão forte que saltava ao seu olho de metal, um amigo suplicando ao outro por ajuda. Eu estiquei minha mão para ele. Além de nós eu podia sentir Ianthe se contorcendo para retomar o controle, para achar um jeito de virar aquilo para ela.
Talvez Lucien também pudesse ver, pois ele tomou minha mão e se ajoelhou na grama apertando meus dedos contra sua testa.
Como feixes de trigo ao vento, todos os outros ajoelharam-se.
Pois em todos os seus planejamentos de rituais e cerimônias, Ianthe nunca revelara nenhum sinal de poder ou benção. Mas Feyre Quebradora de Maldições, aquela que guiou toda Prythian para fora da escuridão e tirania...
Abençoada. Sagrada. Incorruptível ante o mal.
Deixei que meu brilho se espalhasse, até que se ondulasse pela forma ajoelhada de Lucien.
Um cavaleiro diante de sua rainha.
E, quando olhei para Ianthe e sorri de novo, deixei que um pedacinho do lobo se mostrasse.
As festividades, ao menos, continuaram as mesmas.
Quando o estardalhaço de admiração terminara, quando meu próprio brilho desapareceu quando o sol já ia alto por minha cabeça, caminhamos para as colinas e campos vizinhos onde aqueles que não tinham ido à cerimônia, já tinham ouvido falar do meu pequeno milagre.
Me mantive perto de Lucien, que estava inclinado em me saciar, posto que todos os outros pareciam divididos entre alegria e temor, perguntas e preocupações.
Ianthe passou as próximas seis horas tentando explicar o que acontecera. O Caldeirão havia abençoado sua amiga, ela dizia a quem quisesse escutar. O sol havia alterado seu curso de tão feliz que estava pelo meu retorno. Apenas suas acólitas haviam prestado atenção e metade delas pareciam meio interessadas.
Tamlin, no entanto, parecia o mais assustado – como se a benção tivesse me deixado chateada, como se pudesse lembrar da mesma luz em Hybern e não conseguisse compreender o que o perturbava tanto. 
Mas o dever o manteve retribuindo agradecimentos e desejando graças aos seus súditos, guerreiros e lordes inferiores, me deixando livre para vagar por onde quisesse. Era parada vez ou outra por fervorosos adoradores feéricos que desejavam tocar em minhas mãos, levar um pouco de mim. 
Antes eu teria me encolhido, estremecido. Agora eu recebia suas bênçãos de maneira beata, agradecendo e sorrindo-lhes. Alguns eram genuínos. Não tinha nada contra o povo dessa terra, mas os cortesãos e as sentinelas que me buscavam... eu me mostrava melhor para eles, Abençoada pelo Caldeirão, eles me chamavam. Uma honra, eu apenas replicava. 
De novo e de novo eu repetia aquelas palavras. Pelo café da manhã e almoço, até que retornei à mansão para me refrescar e ter um momento para mim. Na privacidade do meu quarto coloquei minha coroa de flores sobre a penteadeira e sorri levemente para o olho tatuado na palma de minha mão direita.
O dia mais longo do ano, eu disse pelo laço, mandando junto fragmentos do que acontecera na colina. Queria poder passar com você.
Ele teria gostado da minha performance, teria rido até ficar rouco depois da expressão no rosto de Ianthe. Tinha terminado de me lavar e estava me preparando para voltar para a Colina quando a voz de Rhysand encheu minha mente. 
Teria sido uma honra, ele disse, com risadas em cada palavra, passar até mesmo um breve momento na companhia de Feyre, a Abençoada pelo Caldeirão
Eu ri. As palavras estavam distantes, drenadas. Seja rápida. Eu tinha de ser rápida ou arriscar a me expor. Mais do que qualquer coisa eu precisava saber, precisava perguntar
Estão todos bem?
Esperei, contando os minutos. Sim, estão todos bem. Quando você volta para casa, para mim?
Cada palavra era mais quieta que a outra.
Breve, eu prometi. Hybern está aqui. Terá acabado em breve.
Ele não respondeu. E eu esperei por mais alguns minutos e coloquei minha coroa de flores e me dirigi para a escada. Quando eu atingi o jardim decorado, a voz falhando de Rhysand encheu minha cabeça de novo - Queria poder passar o dia de hoje com você também.
As palavras eram como um punho apertando meu coração. E eu as forcei fora da mente quando retornei para a festa nas colinas, meus pés mais pesados do que antes quando saíra dali para a casa.
Mas o almoço havia sido tranquilo e as danças começaram.
Eu o vi esperando num dos arredores dos círculos, observando cada movimento meu. Olhei rápido para a grama, para a multidão e para o grupo de músicos que coaxavam sua música de tambores, rabecas e flautas, me aproximando devagar, como uma corsa tímida.
Antes esses mesmos sons haviam me sacudido e acordado, me fizeram dançar e dançar. Supus que agora eles nada mais eram do que mais uma arma no meu arsenal quando me aproximei de Tamlin, abaixei meus cílios e perguntei com carinho.
- Você dançaria comigo?
Alívio, felicidade e um pedaço de preocupação
- Sim. - Ele respirou, “Sim, é claro.”
Então eu deixei que ele me guiasse pelas danças rápidas, girando e me inclinando, as pessoas ao redor para comemorar e bater palmas. Dança após dança, até que o suor corria por minhas costas enquanto eu trabalhava para manter o ritmo, manter o sorriso no rosto, lembrar de rir quando minhas mãos estavam à distância de estrangulá-lo na garganta.
Eventualmente a música mudou para algo lento e Tamlin nos levou junto com a melodia, quando os outros acharam seus parceiros mais interessantes do que nos observar, ele murmurou.
- Esta manhã... você está bem?
Minha cabeça bateu de repente “Sim. Eu... eu não sei o que foi aquilo, mas sim. Ianthe está... está brava?”
- Não sei. Ela não esperava por aquilo. Não acho que ela lide bem com surpresas.
- Eu deveria pedir desculpas.
Seus olhos brilharam.
- Pelo que? Talvez tenha sido uma benção. Magia ainda me surpreende. Se ela está irritada, é um problema dela.
Fingi pensar sobre o assunto, mas no fim assenti. Ele me apertava e eu senti nojo em cada parte que nossos corpos se tocavam. Não fazia ideia de como Rhys tinha conseguido suportar aquilo – suportar aquilo com Amarantha, por cinco décadas.
- Você está linda hoje. - Disse Tamlin.
- Obrigada. - Me obriguei a olhar em seu rosto. “Lucien disse que você não completou o rito no Calanmai. Que você recusou.”
E que você deixou Ianthe ficar com ele naquela caverna. 
Sua garganta balançou. “Não tive estômago para isso”
E teve para fazer um acordo com Hybern, como se eu fosse um item roubado que tinha de ser recuperado.
- Talvez essa manhã não tenha sido uma benção somente pra mim. - Eu ofereci.
Um carinho de sua mão descendo por minhas costas foi sua resposta.
E foi tudo o que dissemos por mais três danças até que a fome me arrastasse para a mesa onde o jantar estava sendo servido. Deixei que ele enchesse um prato pra mim, deixei que me servisse até que achamos um ponto sob um carvalho velho e retorcido e ficássemos assistindo as danças e a música.
Quase perguntei se tinha valido a pena – se desistir dessa paz tinha valido a pena só para me ter de volta.
Pois Hybern viria para cá e usaria essas terras. E não haveria mais canto e dança, não quando eles chegassem. Mas eu fiquei quieta enquanto a luz do sol desaparecia e a noite finalmente caía. 
As estrelas brilhando sua existência, escuras e pequenas sobre as fogueiras que brilhavam.
Eu as observei durante as longas horas da celebração, e podia jurar que elas me faziam companhia, minhas fiéis e silenciosas amigas.

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